3 de ago. de 2011

CAPÍTULO II

Surge uma possibilidade.


Nesse meio-tempo as aulas estavam sendo dadas no salão paroquial da igreja do bairro, cedido pelo padre Afonso. O lugar era pequeno; tivemos de improvisar divisórias, trazer mesas, cadeiras, quadro-negro. O pior é que o salão só tinha um banheiro, minúsculo. Volta e meia formava-se uma fila na porta, todo mundo reclamando da demora.

Mas, de um jeito ou de outro, as coisas funcionavam. O Jaime fora provisoriamente substituído pela jovem professora Sandra, que também era ótima, e que igualmente sabia nos motivar para a leitura.

Estávamos justamente tendo uma aula com ela quando o Vitório entrou, correndo e agitado. O que não era comum: presidente reeleito do grêmio do colégio, Vitório era conhecido como um cara tranquilo, ponderado. Defendia as causas estudantis com muito ardor – se fosse necessário reclamar de algum problema do colégio ele ia a Radio Itaguaí ou ao Diário Itaguaiense -, mas exercia essa capacidade de liderança de maneira equilibrada, madura. Um exemplo, segundos nossos professores.

Por isso surpreendia a excitação que ele agora mostrava. Ainda ofegante da corrida, pediu desculpas à professora por ter se atrasado, e por ter entrado daquela maneira tão brusca, mas havia motivos para tanto; ele acabara de ser informado de algo que poderia ser muito importante para o futuro da escola, e que gostaria de transmitir aos colegas – se a professora permitisse, obviamente.

- Vá em frente – disse Sandra. – Até eu estou curiosa.

- Já vou contar do que se trata – disse Vitório. – Mas primeiro tenho uma consulta para lhe fazer, mestra. Uma consulta literária, aliás. Posso perguntar?

- Se eu souber responder... – respondeu Sandra, divertida.

- Então vamos lá. No dia do desastre, o professor Jaime disse que iria nos apresentar um livro muito importante. Leu o começo, que até lembro: o narrador diz que está vindo da cidade para o Engenho Novo, e aí encontra um poeta, e o poeta quer ler para ele uns versos, mas ele não está com muita vontade de ouvir... Pergunto: você por acaso sabe, Sandra, de que livro Jaime estava falando? Pensei em procurá-lo, mas considerando que o coitado ainda está se recuperando...

- Não é preciso incomodar o pobre Jaime – retrucou Sandra. – Eu sei que livro é esse. E acho que vocês também sabem, pelo menos de ouvir falar. O título do livro resulta de um apelido que o jovem poeta, chateado porque acha que não teve a atenção merecida, dá ao narrador. Ele usa um termo não muito comum, hoje em dia, mas que designa uma pessoa fechada, retraída, meio anti-social: casmurro. O livro se chama Dom Casmurro. O Jaime...

- Dom Casmurro! – bradou Vitório, interrompendo-a. – Dom Casmurro! Eu sabia que era o Dom Casmurro! Eu tinha certeza de que era o Dom Casmurro! Não é o Machado de Assis, o autor desse livro?

Sandra, surpresa com aquela reação inusitada, disse que sim: Dom Casmurro fora escrito por Machado de Assis. Vitório estava radiante:

- Machado de Assis! Dom Casmurro, do Machado de Assis! Gente, sem saber o professor Jaime nos transmitiu um recado! Um recado do Destino!

Nós olhávamos assombrados. Nunca tínhamos visto o Vitório daquele jeito. Teria ficado maluco, o cara? Como que adivinhando o nosso pensamento, ele tratou de nos tranqüilizar:

- Sosseguem, meus caros colegas, não estou louco. Sei muito bem do que estou falando.

Tirou do bolso um recorte de jornal:

- Estou falando disso aqui. É uma noticia que saiu hoje no Jornal de Santo Inácio e que me foi dada pelo padre Afonso agorinha mesmo.

Santo Inácio é a cidade vizinha, um pouco maior e um pouco mais próspera que Itaguaí. Como você pode imaginar, existia uma tradicional rivalidade entre os dois lugares. Estamos sempre competindo com “eles”: nosso futebol é melhor (mesmo porque temos dois times, o Itaguaiense e o Conquista, e eles têm um só), nossa estação rodoviária é maior. E estamos sempre lendo o Jornal de Santo Inácio, para ver “o que eles estão aprontando”.

- Posso ler a notícia? – perguntou Vitório. Sandra fez que sim com a cabeça e Vitório leu: - “Capitu em julgamento. Há muitas décadas os leitores do Brasil inteiro debatem a questão: Capitu traiu ou não traiu? Agora, esta dúvida que envolve a famosa personagem do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, dará origem a um original julgamento simulado...”

Seguia-se a explicação de como seria essa julgamento. Poderiam inscrever-se estudantes do ensino médio de Santo Inácio e das cidades vizinhas, em grupo ou isoladamente, para “defender” ou “acusar” Capitu. Seriam avaliados tanto o conhecimento da obra como a capacidade de argumentação. Para escolher o melhor trabalho (de “acusação” ou de “defesa”, isso era indiferente), haveria uma espécie de tribunal no qual um advogado de Santo Inácio faria o papel de juiz. O júri seria composto por pessoas conhecidas, incluindo vários professores de literatura; e as pessoas que assistissem ao julgamento poderiam votar.

- E agora – disse Vitório – vem o melhor. O prêmio. É em dinheiro, e está sendo oferecido pela Fábrica de Sabonetes de Santo Inácio, que, como vocês sabem, é muito grande, e agora abriu outra linha de produtos: eles estão lançando um perfume para gente jovem chamado, justamente, Capitu, daí o concurso. E vocês sabem de quanto é o prêmio? Sabem? Alguém ai tem idéia?

Ninguém tinha. Ele respirou fundo e disse a quantia.

Era muita grana. Deus do céu, era muita grana. Mas a troco de quê Vitório estava nos dizendo aquelas coisas? Esta foi a pergunta que lhe fiz. Ele me olhou meio surpreso:

- Mas você não se deu conta, cara? Você, que é um cara inteligente? Nós vamos entrar nesse concurso! Nós vamos ganhar, e com o dinheiro vamos arrumar nossa escola!

Agora, arrebatado, gesticulava como se estivesse num comício:

- É o Destino, gente! Destino com “D” maiúsculo! Porque vocês acham que Jaime nos falou de Dom Casmurro bem no dia do desastre? Porque o Destino estava nos mandando um recado. Ele estava dizendo que Machado de Assis ajudaria a reconstruir a nossa escola.

Nós ouvíamos, espantados. Será que Vitório, um cara inteligente, ponderado, acreditava mesmo naquela coisa de Destino? Isso é bobagem, eu ia dizer, mas a Júlia se antecipou:

- Escuta, gente. Eu não sei se é Destino ou não, se é com “D” maiúsculo ou minúsculo, mas acho que essa idéia do Vitório e muito boa. Pra começar, nada temos a perder; e, se ganharmos o concurso, vamos trazer prestígio ao colégio e à cidade, e conseguir dinheiro para a obra. Ah, sim, tem mais uma coisa: a nossa vitória será uma lição para o pessoalzinho de Santo Inácio, que se julga superior a nós.

Voltou-se para Vitório:

- Comigo você pode contar.

***

Júlia.

Cada vez que ela falava, meu coração batia mais forte.

A gente se conhecia desde a infância. Tínhamos até morado em casa vizinhas. Nos fundos do quintal dela havia uma casinha que era nosso refúgio; ali ficávamos horas. Era uma relação tão próxima, a nossa, tão terna, que nossos pais não hesitavam em dizer: esses dois vão acabar se casando. O que, para mim, era um sonho. Eu achava Júlia simplesmente linda, adorava seus grandes olhos azuis, a boca de lábios polpudos, a cabeleira loira. Adorava particularmente sua voz, que parecia veludo, e até tinha feito para ela um poeminha, um mau poeminha, que começava assim: “De tudo que já ouvi, de tudo/ a tua voz que parece veludo...”, e por aí eu ia. Júlia gostava de meus poemas, gostava de mim, repetia a todo instante que me amava, mas disso eu não tinha muita certeza.

À medida que o tempo passava, as duvidas cresciam: às vezes me parecia que sim, que éramos namorados. Por exemplo, quando eu ia a casa dela, e ela me recebia, e me levava a seu quarto, e ficávamos trocando beijos e carinhos... Mas já no dia seguinte ela se mostrava distante, até fria.

O fato é que ela era uma garota complicada, sobretudo por causa da situação familiar. Depois de uma longa e difícil convivência os pais tinham se separado, um rompimento tumultuado, com muitas brigas e acusações. O pai mudara para o Rio de Janeiro e raramente aparecia. Júlia morava com a mãe, funcionária publica, mas as duas não se davam muito bem; discutiam por coisas insignificantes. E havia um irmão com problemas mentais, que passava a maior parte do tempo no hospital. Ou seja, razões a Júlia tinha para ser tão instável, imprevisível mesmo, e isto, claro, refletia em nossa relação.

Se vocês me perguntassem se a gente namorava, namorava mesmo pra valer, eu não saberia responder; às vezes me parecia que sim, outras vezes que não. Tinha dúvidas, e isso fazia com que eu morresse de ciúmes. Aliás, ciumento sempre fui, desde criança; não podia ver meus pais brincando com outro menino, que tinha ataques. Mas em relação à Júlia essa coisa era muito mais forte. Eu a vigiava constantemente; ficava por conta quando a encontrava conversando com outro colega, o que sempre acontecia, porque ela gostava de bater papo. Eu tinha a impressão de que ela dava bola pra todo mundo. O que a irritava:

- Você é um cara antigo. Você é daqueles que acha que as garotas não podem falar com ninguém, não podem olhar pra ninguém... Você é ciumento. Reconheça isso: você é um ciumento de carteirinha.

Verdade: eu era um ciumento de carteirinha. Talvez aquilo fosse um traço de família: meu avô, por exemplo, homem muito severo, não permitia que a esposa saísse sem ele; achava que mulher tem que ficar e casa, cuidando da família e sem ter contato com qualquer outro que não o marido. Quando lhe diziam que era ciumento, não negava, respondia com uma única frase: “Ciúme é sinal de amor”. Palavras que eu também dizia a Júlia, durante nossos bate-bocas, que não eram raros.

Enfim: namorados, destes que são reconhecidos como tal pelos colegas, pelos amigos, pelos pais, a gente não era. De qualquer jeito convivíamos, e convivíamos bastante. Tínhamos um grupo, do qual faziam parte, além de nós dois, o Vitório e a Fernanda. Amiga íntima de Júlia, a Nanda, como nós a chamávamos, era uma morena bonita (não tanto quanto a Júlia, mas bonita, sim), muito viva, muito inteligente. “O quarteto” era como Jaime nos chamava.

***

Mas então estava ali o Vitório falando, no maior entusiasmo. Olhei ao redor, e vi que muitos colegas balançavam a cabeça de forma aprovadora; alguns mostravam-se bem interessados.

Eu ainda não estava inteiramente convencido. Talvez por não gostar muito desse tipo de competição, tinha duvidas acerca de como nos sairíamos e resolvi me manifestar:

- A gente nem sequer leu o livro do Machado de Assis. Só conhecemos o primeiro parágrafo...

- Qual é o problema? – retrucou Júlia (de vez em quando ela gostava de me contrariar em publico. Isso fazia parte das nossas complicadas relações). – Dom Casmurro está aí, ao nosso alcance. É só ler e discutir. No mínimo vamos dar uma grande alegria ao Jaime; afinal era exatamente isso que o coitado pretendia, quando aconteceu aquele desastre. Eu particularmente estou curiosa. Não sabia que tinha essa historia de traição, mas agora que sei, estou ansiosa para saber do que se trata.

- Eu também gostaria de saber do que se trata – disse a Nanda, os olhos cravados em Vitório. Todo mundo achava que ela tinha uma secreta paixão pelo rapaz.

Sandra não dizia nada. Olhava-nos, sorrindo.

- E você, que acha? – perguntei. – Afinal, você é a nossa mestra...

- Eu acho uma boa – ela disse. – A literatura é uma casa de muitas portas: a porta da curiosidade, a porta do interesse, a porta da finidade... Tem gente que vai em busca de um livro porque um amigo recomendou. Tem gente que gosta do autor, tem gente que está interessada pessoalmente no tema... Isso não importa. O que importa é gostar, é se emocionar, e aprender. Essa história do prêmio é meio engraçada, mas, se funciona como motivação para vocês, sigam em frente. A causa é boa, pessoal. Arranjar dinheiro para reconstruir a escola é muito importante. Portanto, será ótimo se vocês ganharem esse concurso. Se não ganharem, no mínimo terão descoberto, e estudado, um grande livro. Podem contar comigo para isso. E tenho certeza de que vocês podem contar com Jaime também.

Eu hesitava ainda, e, como eu, mais um ou outro colega. Será que não estávamos alimentando falsas esperanças? Afinal de contas, não tínhamos a menor experiência em concursos como aquele. Nem sabíamos quem seriam os adversários. Com essas ponderações, que fiz em voz alta, alguns já se mostravam desanimados, e aquilo foi algo que Vitório percebeu. De imediato mostrou as suas qualidades de líder. Ele não deixava a peteca cair:

- Pessoal, acho que a questão está bem clara. Temos uma chance de ouro para ajudar nossa escola. Já ouvimos os prós e os contras, agora temos de decidir. Vamos votar: quem acha que devemos participar do julgamento da Capitu, levante a mão.

Aos poucos, as mãos foram se erguendo. Apesar de relutante, acabei aderindo à maioria. No fim, era unanimidade: todos tinham se convencido, todos queria participar do concurso. Um colega sugeriu que, para isso, o Vitório organizasse um grupo de trabalho.

- É pra já – disse o Vitório, e indicou os nomes: o meu, o da Júlia e o da Nanda, mais ele próprio: o “quarteto”. Que foi aprovado pela turma.

- Ótimo – disse Vitório. – Já avançamos bastante. Agora temos de decidir o que o grupo de trabalho vai fazer.

- Quem sabe, pessoal, a gente, além de falar com a Sandra, se reúne também com o Jaime? – sugeriu Nanda. – Tanto o Jaime quanto a Sandra conhecem bem o livro, podem nos dar boas dicas.

Todos concordaram. Jaime já tinha deixado o hospital, mas ainda estava em casa, de repouso; tão logo terminou a aula da Sandra, Vitório ligou e perguntou se ele podia receber um grupo de alunos:

- o “Quarteto”, Jaime. O “Quarteto’ que você conhece...

Jaime topou nos receber, e o encontro foi marcado para as quatro da tarde do dia seguinte. Mas eu ainda estava em duvida se deveria ir junto; sim, tinha sido escolhido para o grupo, mas no fundo o meu entusiasmo por aquele tal de julgamento não era dos maiores e foi o que eu disse a Vitório:

- Não sei se vou atrapalhar mais do que ajudar...

Ele não queria saber de minhas dúvidas. Por causa da nossa longa convivência, Vitório me conhecia bem, sabia que às vezes podia até decidir por mim:

- Você vai, e estamos conversados. Somos um grupo, ou não somos? E tenho certeza de que você acabara vestindo a camisa.

Às quatro horas em ponto do dia seguinte lá estávamos, na modesta casa que o Jaime morava, sozinho. Poucos meses antes a esposa deixara-o por outro homem, um dentista que morava em Santo Inácio. Todo mundo sabia que a separação abalara Jaime, mas ele resolvera seguir com sua vida. Inclusive permanecera na mesma casa e fazia questão de manter o pequeno, mas bonito, jardim, no qual trabalhava todos os fins de tarde.

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