Descobrindo Dom Casmurro.
Jaime nos recebeu de roupão. Emagrecera, o coitado, mas mostrava-se animado:
- A gente não pode se deixar abater. O importante é não perder a coagem, é enfrentar os problemas.
Levou-nos para o quintal, nos fundos da casa. Sentamos nos bancos rústicos que ele mesmo confeccionara. Estava um dia bonito: agora que parara de chover, um sol quente brilhava sobre Itaguaí. Jaime nos olhou:
- E então, pessoal do Quarteto? Estou curioso para saber o que de tão importante vocês têm para tratar comigo. Alguém de vocês é candidato ao prêmio Nobel de literatura?
- É melhor do que o prêmio Nobel – gracejou Vitório. – Dê só uma olhada.
Estendeu-lhe o recorte de jornal. Jaime leu a notícia, optando por achar graça:
- O Machado deve estar se virando no túmulo com esta... Mas, enfim, uma iniciativa assim pelo menos chama a atenção para a literatura brasileira. Imagino que vocês me trouxeram esta notícia porque íamos começar a leitura do Dom Casmurro...
- Não só isto – disse Vitório. – Trouxemos a notícia porque resolvemos participar desse julgamento.
- Participar do julgamento? – disse Jaime, surpreso. – Mas vocês nem conhecem o livro...
- Vamos conhecer. E conhecer a fundo. Você e a Sandra nos ajudarão.
Ele se pôs de pé, animado.
- Nós vamos ler Dom Casmurro do começo ao fim, Jaime, nós vamos descobrir tudo sobre este livro. Traiu, não traiu? É com a gente mesmo, a resposta. E o julgamento... É importante, mestre Jaime. É importante por causa do livro, e é importante por causa do prêmio. É a quantia de que a gente precisa para arrumar o colégio Zé Fernandes. Você não acha que isso é coisa do Destino?
Jaime disse que não acreditava muito nisso; destino a gente faz, era a opinião dele. Mas topava a parada:
- De qualquer modo, lendo o livro do Machado, vocês vão viver uma verdadeira aventura literária. E, se ganharem o prêmio para a escola, para mim será motivo de alegria.
- A gente sabia que podia contar com você – disse Júlia, e a Nanda acrescentou:
- É por isso que você é um grande professor!
Todos estando de acordo, a questão agora era planejar o que fazer. Jaime tinha uma proposta:
- Já vi que vocês serão o grupo que vai tocar em frente essa questão do julgamento. Muito bem. Vocês lêem o livro, nós discutimos em conjunto. E há muito a discutir, pessoal. A verdade é que Dom Casmurro vem provocando polêmica desde que foi publicado, em 1899. Aliás, foi uma época interessante, aquele fim do século XIX. Uma época de grandes transformações sociais e políticas: abolição da escravatura, fim do Império, proclamação da Republica... A capital era o Rio de Janeiro, onde Machado nasceu e onde passou toda a sua vida. Ele era de família pobre: avô escravo, pai operário, mãe lavadeira... Os pais eram agregados de uma senhora que tinha propriedades... Naquela época isto era muito comum. A sociedade brasileira era como uma pirâmide: no alto, estavam os ricos e poderosos, em geral fazendeiros, proprietários de terra, ou então gente de posses, como banqueiros e ricos comerciantes; lá embaixo, os escravos, que praticamente faziam todo o trabalho. No meio, uma camada intermediaria, pessoas que não eram escravas, mas não eram proprietárias, e que nem sempre tinham como sobreviver; dependiam, portanto, dos favores dos ricos, e a eles eram subordinados. Ou seja: não tinham muita autonomia para decidir sobre suas próprias vidas... Entre essas pessoas estavam os agregados, que moravam de favor em grandes propriedades rurais, prestando pequenos serviços. Aliás, vocês vão ver que no livro aparece um agregado desses, o José Dias... O escritor está falando, portanto, de uma situação que conheceu de perto.
- Situação meio deprimente – observou Nanda. – O coitado do Machado pelo jeito não teve muita sorte.
- Não teve mesmo. Ele era pobre, mulato (numa época de racismo escancarado) e doente: sofria de epilepsia, ou seja, tinha crises compulsivas. Desde cedo precisou trabalhar para ajudar a família: vendia doces. Que se saiba, nunca foi à escola. Com muito esforço e graças à sua inteligência, aprendeu a ler ainda bem pequeno; conseguiu se educar. Mas gostava mesmo de escrever: começou a publicar na imprensa ainda muito jovem, ao mesmo tempo que trabalhava como tipógrafo e revisor, tornando=se, mais tarde, jornalista. Como muitos contemporâneos, tratou de ganhar a vida entrando no serviço publico: chegou a ser um importante funcionário do Ministério da Agricultura. Era respeitadíssimo como escritor e foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Nos seus livros, Machado fala de um Rio que era a capital federal, mas uma cidade bem menor e bem diferente do que é hoje o Rio de Janeiro.
- Mais conservadora, decerto... – disse Júlia.
- Muito mais conservador. O Brasil de hoje é fichinha comparado ao Brasil daquela época. Era um país com uma estrutura social muito rígida; cada um tinha de ficar no se lugar, pobres separados dos ricos, brancos separados dos negros. A relação entre homens e mulheres era complicada, cheia de preconceitos. Mulher tinha de ser submissa ao marido; ficava em casa, cuidando das crianças. Trabalhar fora, nem pensar: marido nenhum admitiria isso. Como vocês podem imaginar, essa situação criava ressentimentos, suspeições. Dom Casmurro fala de uma questão muito delicada, que é a questão dos ciúmes. É um livro que...
Interrompeu-se, olhou o relógio:
- Desculpe, gente, mas acabo de me dar conta: daqui a cinco minutos vem o cara da fisioterapia. Vamos ter de ficar por aqui hoje. Alguma coisa sobre Machado e sua época vocês já sabem. Mas nós vamos nos aprofundar mais neste tema, bem mais.
Colocou-se à nossa disposição para ajudar em tudo. E terminou dizendo que estava confiante:
- Eu conheço vocês quatro. Formam um grupo ótimo. Tenho certeza de que vão levar a coisa em frente. Não é missão impossível, pessoal.
Não, não era missão impossível. Podia ser uma tarefa difícil, mas nós já estávamos sentindo aquilo como um desafio, estimulante desafio. O que não sabíamos era que naquele momento estávamos dando início a uma verdadeira aventura, que teria repercussão em nossas vidas.
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