Fato novo.
Tudo indicava que a nossa próxima reunião seria uma briga só, do começo ao fim. De um lado, os defensores de Capitu, Vitório, Júlia e a vira-casaca Nanda. Do outro lado, eu, o defensor do Bentinho, previamente derrotado: neste segundo round minha chances eram zero. Pelo jeito, eu iria mesmo a nocaute. Um nocaute vergonhoso.
Uma solução seria jogar a toalha, reconhecer a derrota. Mas isto eu não faria. Não daria a eles esse prazer. E também não deixaria que me enfurecessem, que me tirassem do sério.
O que fazer, então? Para dizer a verdade, eu não sabia. Mas queria ver onde nos levaria a conversa.
Que começou tensa. Vitório tentava levar as coisas numa boa:
- Está certo, pessoal, discordâncias podem existir entre nós, mas nada que não se possa resolver numa discussão de gente educada.
Falou, falou. Nanda e Júlia, muito sérias, nem me olhavam. Não havia dúvida: naquela história existiam dois vilões, um do passado, outro do presente, o Bentinho e eu. Bentinho terminava a sua história só. Eu, pelo visto, também ficaria só. Só e derrotado.
- O ponto de vista predominante aqui no grupo – continuava Vitório – é de que Capitu não traiu. Portanto, esta é a posição que defenderemos no julgamento lá em Santo Inácio, no mês que vem. Nós...
- A menos – interrompi – que surja um fato novo.
Falei e de imediato calei-me, assombrado com minhas próprias palavras.
Fato novo? De onde é que eu tinha tirado aquilo? Não havia nem um fato novo que me favorecesse. Pelo contrário, a última novidade, a mudança de posição de Nanda, caíra em cima de mim quase como a pedra sobre o telhado da escola. Mas a verdade é que a frase teve impacto: os três me olhavam boquiabertos.
- Qual fato novo? – perguntou Júlia, esquecida de que já não falava comigo.
Eu sorri superior:
- É uma coisa que vocês nem podem imaginar.
Nem eu estava imaginando, claro, mas isso eu não podia dizer.
Júlia estava indignada, Nanda, a doce Nanda, também. Mas Vitório, que não perdia de vista o objetivo maior, ganhar o concurso, tratou de manter a calma. Pediu às garotas que se contivessem, e voltou-se para mim:
- O que você está dizendo, Queco, é muito sério. Pelo que entendo você descobriu alguma coisa que acaba com a nossa argumentação. É isso?
Vacilei:
- Bem...
Ele insistiu:
- É isso? Acabaram-se nossos argumentos?
Júlia me olhava, zangada mas ao mesmo tempo ansiosa. Não posso negar que me agradava vê-la assim; eu agora me sentia vitorioso. E resolvi tripudiar:
- É exatamente isso, colegas. Eu descobri algo sobre Dom Casmurro que pouca gente sabe. Nem o Jaime tinha conhecimento disso. É uma coisa que vai revolucionar o estudo da literatura brasileira.
- Mas, afinal – bradou Júlia -, pode se saber que revelação tão espantosa é essa?
- Não – respondi, seco. – Ainda não
- Por que não?
- Porque ainda me falta algo. Algo que vai servir de prova. Não é um julgamento? Pois então: julgamentos exigem provas. Dentro de alguns dias terei essa prova. E aí minha posição será imbatível. Podem crer.
Àquela altura eu já estava meio inseguro e por mim teria encerrado a desagradável discussão por ali mesmo. Mas Júlia não se deixava convencer: queria saber que tipo de prova eu apresentaria.
- É um documento, coisa assim?
- É. É um documento. – agora sentia-me completamente encurralado; provavelmente não agüentaria aquela pressão por mais de cinco minutos. Minha esperança era de que a sineta soasse. Não soava nunca e eu já estava pensando em ir embora de qualquer maneira quando, inesperadamente, Vitório veio em meu socorro:
- Gente, o intervalo está terminando. Vamos fazer o seguinte: Queco, você nos traz essa prova. Se for realmente importante, como você diz, se mudar tudo, se anular nossos argumentos, teremos de revisar nossa posição, e faremos isso. Só peço que você, por favor, não nos deixe esperando, certo?
- Certo – eu disse, e por pouco minha voz não tremeu naquela hora, por muito pouco. Porque a verdade é que, em vez de estar me sentindo vingado, eu me sentia apreensivo: acabara de me meter numa enrascada e não sabia como sair dela. Mas aparentemente ninguém percebia minha perturbação, e procurei manter o sangue-frio. Precisava só ganhar tempo para pensar em alguma coisa, em alguma solução. De modo que avisei:
- Pessoal, essa prova da qual estou falando, isso talvez demore um pouco.
- Certo – disse Vitório. – mas lembre que temos prazo. Não vá nos deixar na mão.
Procurei tranqüilizá-los:
- Vocês podem confiar em mim – garanti. E acrescentei (mas isto foi mesmo malvadeza de minha parte, uma malvadeza só explicável pelo ciúme): - Mais do que eu pude confiar em vocês.
Vitório e Júlia de novo trocavam um olhar, aquele olhar que me enfurecia, e que para mim era prova da cumplicidade entre eles. Eu não disse nada, mas aquilo reforçou minha convicção: precisava me vingar, e a tal prova que inventara seria o instrumento de minha vingança; daí em diante dedicaria cada minuto para descobrir o que fazer. Só que não tinha a menor idéia a respeito. Voltei para casa muito aborrecido, preocupado mesmo. Tão preocupado, que mamãe notou.
- O nosso Queco hoje não está com boa cara, Sapeca – comentou olhando para a cachorrinha. – Pelo jeito, quem vai levar você para passear sou eu.
Naquele momento o telefone tocou. Era o Jaime, querendo falar comigo. Fiz um sinal à mamãe de “não estou em casa”. Ela sacudiu a cabeça, transmitiu o recado, e desligou, mas não deixou de advertir que não lhe agradava mentir, mesmo em nome do filho, sobretudo em nome do filho. Não disse nada, mal falei com meu irmão, que vinha entrando, e fui para o meu quarto, onde tranquei a porta. Estirei-me na cama, a cabeça girando: meu Deus, eu pensava, que confusão eu criara. Agora estava arrependido de não ter falado com Jaime ao telefone: certamente ele ligara porque estava querendo me ajudar. Talvez pudesse até ter me dado alguma dica capaz de me tirar do atoleiro.
Jaime. Eu agora lembrava a conversa que tivera com ele, e em particular quando mencionou: “essa coisa de ‘traiu ou não traiu’, isso não tem muita importância. No fundo, é um jogo que o Machado faz com os leitores”.
Um jogo que o Machado faz com os leitores. Um jogo que o Machado faz com os leitores...
Um jogo! Machado! Pulei da cama como que impulsionado por uma mola. De repente senti aquilo como uma idéia inspirada, que poderia apresentar a solução para o meu problema. Mas como, exatamente, poderia Machado entrar na jogada? Nervoso, eu caminhava de um lado para o outro, tentando encontrar uma resposta para essa questão.
De repente detive-me: já sabia o que fazer.
Uma carta. Uma carta do Machado a alguém, a um leitor (que poderia até ser anônimo, desconhecido), dizendo que para ele, o autor do romance, Capitu traíra Bentinho. Um documento assim, se existisse, acabaria de vez com todas as duvidas. E me daria razão perante o grupo. Só que, infelizmente, Machado não tinha escrito tal carta...
Não tinha escrito, mas escreveria.
Melhor dizendo, alguém escreveria por ele: o Francesco Formoso de Azevedo. O Queco. Eu. Eu escreveria uma carta em nome do machado, dizendo que, na opinião do autor, Capitu traíra Bentinho com Escobar, de quem Ezequiel era filho.
A esta altura vocês devem estar atônitos, estarrecidos com essa idéia que não era só meio louca: era um ultraje, uma ofensa. Afinal de contas eu estava cogitando uma falcatrua histórica, envolvendo ninguém menos que um grande escritor brasileiro. “O que é que deu nesse cara?”, vocês devem estar indagando.
Boa pergunta. “O que é que deu nesse cara?”
Desespero, eu acho que é a resposta mais obvia. Porque desesperado eu estava. E quando o cara está desesperado ele vai fazendo uma bobagem atrás da outra, vai se afundando cada vez mais no buraco que ele próprio cava. Você começa brigando com um, depois briga com outro, e com outro, e inventa uma história, depois inventa outra história para justificar a primeira, e por aí você vai. O que é um absurdo, para dizer o mínimo. Desespero dá para aceitar. Desonestidade, não. Não há desculpa para a desonestidade, para a safadeza.
No meu caso, isto significava “apenas” escrever uma carta imitando o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis. Bota atrevimento nisso, vocês dirão. Mas, como dá pra ver, esse atrevimento refletia a medida do meu desespero. Eu estava decidido. E, uma vez decidido, tinha de por mãos à obra.
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