Um ciumento de carteirinha.
A verdade é que sempre gostei de ler. Um gosto que vinha da infância. Quando era pequeno, só concordava em ir pra cama se papai ou mamãe lessem pra mim. Crescendo, mantive esse habito. Eu fazia questão de um lugar só meu para a leitura. E tive de conquistar esse lugar. Nossa casa não era grande, porque meus pais não tinham muita grana, por isso eu dividia o quarto com meus irmãos. Instalei junto da janela uma velha poltrona, e aquele era meu refúgio. Lia até de madrugada, os dois reclamando da luz acesa. Depois eles entraram na faculdade (medicina e direito) no Rio, onde foram morar, e aí eu podia ler à vontade.
Voltando ao Dom Casmurro: nas primeiras páginas não simpatizei muito com o personagem principal. Um cara com o apelido de Dom Casmurro, que fica sozinho depois de velho, um cara assim só podia ser um chato – essa foi aminha impressão inicial. Lembrava-me de um vizinho que nós tivemos, o seu Noé, um viúvo rico e avarento que morava sozinho na enorme casa em frente da nossa. Dizia-se que tinha família, grande até, mas não permitia que filhos ou sobrinhos o visitassem; achava que estavam de olho em sua grana. Dos vizinhos, então, ele não queria nem saber, o que era motivo de discussão em nossa casa. Meu pai detestava o velho, achava que ele merecia a solidão; mamãe, mais tolerante, ponderava que é difícil julgar as pessoas sem saber como elas são na realidade, o que pensam, as fantasias que alimentam.
Uma vez tive um incidente com seu Noé, algo meio grotesco. A gente costumava sentar de noite num degrau da casa dele, o Vitório, eu, e uns outros amigos; ficávamos conversando, cantando. Lá pelas tantas sentimos o traseiro molhado; o seu Noé despejara água pela fresta da porta (água ou coisa pior: o cheiro era meio suspeito). Nós ficamos furiosos, pensando em desforra, mas mamãe aconselhou-me a ver a coisa de outra maneira:
- Imagina esse homem deitado na cama dele, virando de um lado para o outro sem conseguir dormir, ruminando coisas tristes. Aí ele ouve vocês rindo e cantando, e o que é que ele pensa? “Por causa desses garotos chatos eu não consigo dormir”, é o que ele pensa, e aí ele resolve mandar vocês embora do jeito que ele sabe, molhando o traseiro de vocês...
É, talvez mamãe tivesse razão, talvez atrás de cada Casmurro se escondesse um sujeito triste. Seria o caso do personagem do livro? Bem poderia ser, e confiando nisso fui adiante na leitura. Fiquei comovido quando o personagem diz que, escrevendo, seu objetivo era “atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência”. Ou seja: o cara era Dom Casmurro, mas ele era também o Bentinho, o senhor maduro e o rapaz. Casmurro e Bentinho.
A maior parte do Dom Casmurro fala do Bentinho menino, já no terceiro dos pequenos capítulos o narrador esta de volta à infância. De volta à infância e às voltas com um difícil problema, como a gente vê num diálogo entre a mãe dele, dona Glória, e o José Dias, agregado da família. José Dias apresentava-se como médico praticante da homeopatia, ou seja, não usava remédios comuns e sim outros, preparados de acordo com certos princípios, com os quais curara o feitor e uma escrava na fazenda do pai de Bentinho, em Itaguaí.
“Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo, com um pequeno ordenado”, diz o narrador. Oferta que José Dias em princípio recusa, mas depois muda de idéia: “Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro estipêndio...”. Ou seja, ficara morando ali em troca dos serviços que prestasse. Quando da morte do pai de Bentinho, dona Glória pede a José Dias que continue na propriedade. “Com o tempo adquiriu certa autoridade na família.”
É com esta autoridade que ele procura dona Glória para falar de Bentinho. Ao menos para a mãe, o destino do menino está traçado: ele vai para o seminário, de onde deverá sair padre. Isto por causa de uma promessa que ela fez, e da qual mais adiante tomaremos conhecimento: “Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse, prometendo, se fosse varão, metê-lo na igreja”. Mas para que esta promessa se cumpra, avisa José Dias, “pode haver uma dificuldade [...], uma grande dificuldade”.
A grande dificuldade tem nome. Chama-se Capitu.
Pois é, gente. É assim que a garota – garota mesmo: tem quatorze anos, quase a mesma idade de Bentinho, que acabara de fazer quinze – entra na história. Como “uma dificuldade”. Para dona Glória, o filho e a garota “são dois criançolas”.
Não é o que pensa José Dias. Ele procura dona Glória para cumprir, segundo suas palavras, “um dever amaríssimo”, ou seja, um dever muito amargo. “José Dias amava os superlativos”, diz o narrador, e explica: “Era um modo de dar feição monumental às idéias”. Com a ajuda dos superlativos avisa dona Glória que Bentinho e Capitu andam sempre juntos, “em segredinhos”, e que, “se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los”.
Bentinho, que ouve a conversa, fica completamente perturbado. Não por cauda da indiscrição de José Dias; por outra razão: “Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim?”, ele se pergunta, assombrado. Dá-se conta de que o sentimento que o une a Capitu é exatamente isso, aquele amor descrito nos livro em palavras tão eloqüentes. Começa a lembra detalhes da convivência entre ambos: “Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; Outras vezes pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava as mãos pelos cabelos...”. E conclui: “Pois, francamente, só agora entendia a emoção que me davam essas e outras confidências”.
Então, ele ama Capitu... Então, Capitu o ama...
Confesso que fiquei com um nó na garganta lendo essa passagem. E fiquei com um nó na garganta por causa da simplicidade, da ingenuidade do Bentinho. Angelical Bentinho, santo Bentinho! Que contraste entre aquele menino e aquela menina do século XIX e as coisas que eu via todos os dias na tevê: a violência, a brutalidade, o sexo escrachado! E que contraste, também, entre o Bentinho de quinze anos e o Dom Casmurro, entre o menino ingênuo e o velho amargurado!
Àquela altura o livro parecia única e exclusivamente uma bela historia de amor; nada fazia supor a traição. Cheguei a lamentar o fato de conhecer o final: melhor seria terminar a leitura por ali. Melhor seria se Machado de repente dissesse: “... e então se casaram, e tiveram muitos filhos, e foram felizes para sempre”. Mas aí o título não poderia ser Dom Casmurro. E nem seria Machado de Assis, um escritor realista, quando não melancólico. O autor de O Alienista preferia a realidade, por amarga que fosse, à narrativa água-com-açúcar.
De qualquer modo o texto fluía fácil, agradável. Claro de vez em quando aparecia uma palavra que eu não conhecia, mesmo porque o romance fora escrito no século XIX. Nada, porém, que eu não conseguisse deduzir pelo sentido da frase.
O fato era que o livro me mobilizava por completo. Eu não conseguia parar de ler, e até me perguntava a razão daquele fascínio. E aí me dei conta: em primeiro lugar, na maior parte da narrativa os personagens são jovens. Jovens do século XIX, certo, jovens que eu imaginava falando diferente da gente, usando roupas diferentes das nossas roupas, mas jovens, de qualquer maneira. Mais: jovens com sentimentos parecidos com os nossos, com emoções parecidas às nossas; claro que naquela época não havia pílula anticoncepcional, os costumes não eram tão livres (também não se usava tanta droga, nem havia Aids), mas de qualquer modo eu podia me identificar com os personagens, sobretudo com o Bentinho. Enfim, cada página do Dom Casmurro era uma surpresa, uma boa surpresa. Um mundo novo que eu estava descobrindo.
***
Tão absorvido eu estava na leitura que nem notei o tempo passar. Lá pelas tantas mamãe bateu à porta:
- Seus amigos estão no telefone, perguntando se você esqueceu do encontro.
O encontro! Claro, tínhamos combinado uma reunião para ver o que faríamos em relação ao concurso. E o pessoal já estava no Shopping me esperando.
O Shopping de Itaguaí era, e é, modesto, comparado aos das grandes cidades (mas deve ser dos poucos que tem uma loja feminina chamada Capitu); de qualquer modo, e como em outras cidades, era ali que nos encontrávamos depois da aula, para comer alguma coisa e bater papo.
Fui correndo até lá, entrei direto na pequena praça de alimentação e ali, numa mesa, estava a turma: Vitório, Nanda, Júlia. E, como se tivéssemos combinado – e de certa maneira nós tínhamos combinado - , cada um estava com um exemplar do Dom Casmurro.
Vitório me saudou com o entusiasmo habitual, Nanda me acenou, Júlia sorriu – aquele sorriso cujo significado eu nunca sabia interpretar direito, se era uma coisa formal, ou um sinal de cumplicidade.
Puxei uma cadeira, sentei. O pessoal estava conversando animadamente – sobre o livro, claro. Vitório insistia em que era preciso lê-lo como um advogado Le os autos de um processo, buscando provas a favor e provas contra. A favor e contra Capitu, naturalmente.
Ponderei que aquilo seria muito difícil:
- Porque o livro é muito bom, gente. Eu não li tudo, mas o que li me deixou entusiasmado. Mal pude interromper a leitura para vir aqui.
- Mas o Vitório não deixa de ter razão – ponderou Júlia. – Na verdade, a gente tem dois objetivos. Um é conhecer a obra do Machado de Assis, que, obvio, é fabulosa. O outro objetivo é vencer o julgamento, é ganhar o prêmio, reconstruir a escola. Tarefa complicada, pessoal. A gente vai ter de se planejar muito bem.
Nanda, a quem admirávamos pela capacidade de organização, pediu a palavra:
- Eu tenho uma proposta. – Abriu o caderno: - Até escrevi aqui... São três etapas. Primeira etapa: ler o livro até o fim. Mas ler sem nenhuma opinião prévia, nenhum preconceito. Segunda etapa: depois de ler, a discussão. Objetivo: responder a pergunta “traiu ou não?”. Vamos listar os pontos a favor das duas posições. Terceira etapa: conclusões. Precisamos chegar a um consenso. E este consenso será a base da nossa argumentação.
Muito bem pensado, mas àquela altura eu já estava me dando conta de uma coisa: a tarefa seria mais difícil do que imaginávamos. Se muita gente discutira, e continuava discutindo, o Dom Casmurro com opiniões contrárias quanto à suposta traição, como chegaríamos a um acordo, a um ponto de vista comum? Foi o que perguntei, um tanto receoso de bancar o desmancha-prazeres, de desanimar o pessoal.
Antes que alguém pudesse responder, um cara veio até nossa mesa. Era um colega de escola, o Alípio, garoto baixinho, com pinta de safado, que estava sempre rindo e por isso recebera o apelido de Graçola. O Graçola, além de risonho, era fofoqueiro: sabia de tudo que se passava na cidade. Perguntou se estávamos discutindo o assunto do julgamento de Capitu. Quando a gente disse que sim, ele olhou para os lados, inclinou-se em nossa direção e cochichou:
- Conheço um fulano que está trabalhando na organização desse concurso, lá em Santo Inácio. Não sei se vocês sabem como a coisa funciona, mas é assim: os concorrentes devem anexar um resumo da apresentação que vão fazer ao público. Pois este meu conhecido já deu uma olhada nos tais resumos e me garantiu que não há nada de excepcional. Ou seja, vocês ganharão fácil, fácil. Barbada.
Olhou-nos, triunfante, e repetiu:
- Legítima barbada. E tem mais: se vocês quiserem, eu posso falar pro cara dar uma mãozinha pra gente: ele tem cinco amigos de confiança no júri.
Não gostei daquilo. Para dizer a verdade, não gostei nada daquilo, daquela “mãozinha”, que não me parecia muito limpa. Se era para competir, então deveríamos competir de maneira honesta, sem obter informações confidenciais, sem pedir ajuda a ninguém, muito menos a um cara metido. Vitório, pelo jeito, pensava a mesma coisa, porque agradeceu ao Graçola, dizendo que o nosso plano era outro. Depois que o garoto se afastou, ele nos olhou, sacudiu a cabeça:
- Esse cara tem muito que aprender, gente, tem muito que aprender... Mas então? Qual é mesmo nosso plano? É esse que a Nanda expôs?
- Em linhas gerais estou de acordo – disse Júlia. – Mas quero propor uma modificação, Nanda. Você diz que precisamos chegar a um consenso. Talvez consenso seja difícil, afinal as nossas cabeças não são todas iguais, pensamos diferente em relação a um monte de coisas. Acho melhor fazer de outra maneira. Cada um lê o livro, analisa a historia, dá sua opinião: traiu, não traiu. Se todos estiverem de acordo, se conseguirmos esse tal consenso, tudo bem. Se não, votamos. Decidimos democraticamente.
- Perfeito – concordou Vitório, encantado. – Você sabe das coisas, Júlia. Acho até que vou indicar você como minha candidata nas próximas eleições para o grêmio estudantil.
Riram, os dois. Ele a abraçou carinhosamente, beijando-a no rosto.
Não gostei daquela cena.
Não gostei nada daquela cena. Pareceu-me que Júlia correspondia ao abraço dele com mais entusiasmo do que devia. E que historia era aquela de beijo, mesmo no rosto? Não, não gostei. Mas não disse nada; afina, aquilo podia ser só uma manifestação de amizade. Além disso, não era momento para comentários azedos.
Júlia, pelo jeito, não tinha percebido minha contrariedade, porque, quando nos levantamos dali, convidou-me para ir ao cinema do shopping. Mas eu, francamente, não estava afim disso. Os dois se abraçando, o beijo... Aquilo tinha estragado o meu dia. Aleguei que tinha trabalho para fazer, que precisava ler o livro, e voltei pra casa. Pelo menos encontraria consolo na leitura do Machado
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