A história faz minha cabeça.
Logo que cheguei em casa fui direto para o quarto: tinha deixado o livro na mesa-de-cabeceira.
Mas ele não estava ali. No banheiro, então? Sim, porque às vezes eu lia no banheiro, apesar das advertências do doutor Eustáquio, que não recomendava esse hábito. Não, no banheiro o livro também não estava. Uma idéia me ocorreu: vai ver, pensei, um dos meus irmãos tinha chegado e, só para sacanear, escondera o Dom Casmurro. Mas quando eles voltavam, sempre traziam uma maleta, sempre deixavam coisas jogadas. E o quarto estava como eu deixara, ninguém entrara ali; não, meus irmãos não estavam em casa. Agora: onde foi parara o danado do livro? Era a pergunta que eu fazia, já impaciente, quando ouvi um latido.
Era a Sapeca, a nossa cachorrinha. De raça indefinida, aparecera uns três anos antes no jardim de nossa casa e fora ficando, inclusive e principalmente porque eu lhe dava comida.
- Desse jeito, essa cachorra nunca vai embora – advertia minha mãe, e eu não queria que ela fosse mesmo, queria ficar com a pobrezinha. Quando lhe dei um nome, papai e mamãe perceberam que a coisa estava decidida. Só impuseram uma condição:
- Você é quem cuida dessa tal Sapeca. Você é quem vai lhe dar banho, vai levá-la pra passear, providenciar vacinas e remédios.
Concordei, claro. A verdade, porém, é que a Sapeca acabou conquistando todo mundo, inclusive meus irmãos, que, do Rio, até telefonavam perguntando por ela. Quando eu voltava pra casa, já a encontrava me esperando: queria que eu a levasse pra passear.
Sapeca era muito brincalhona. Brincava com vários objetos da casa, inclusive com aqueles com os quais ela não deveria brincar. Movido por uma súbita suspeita, corri até a área de serviço e, dito e feito, lá estava ela, com o Dom Casmurro entre as patas, mordendo-o como se fosse um osso ou uma bola de borracha.
Avancei até ela, arrebatei-lhe o livro. E aí a cachorrinha teve uma reação inesperada. Ficou imóvel, me olhando e rosnando baixinho, como que a me desafiar – um comportamento que nunca tinha exibido antes. Dei-me conta então do que estava acontecendo.
Sapeca não estivera brincando com o livro. Sapeca estivera demonstrando sua contrariedade. Porque estava com ciúmes, a cadelinha. De alguma maneira percebera, com aquele instinto que os bichos têm, que eu gostava muito do livro. Ora, se eu prestava atenção àquela “coisa”, não podia prestar atenção a ela, Sapeca. Daí sua raiva, que ela externava atacando Dom Casmurro. Com o que também procurava chamar minha atenção.
Contrariado, dei-lhe uns tapas; bati com vontade, para dizer a verdade. A coitada se encolheu, ficou num canto, tremendo. Então minha raiva deu lugar à piedade. Pobre Sapeca, que culpa tinha? Se eu próprio sentia ciúmes, como ela escaparia disso? Peguei-a no colo, acariciei-a, falei sobre o livro:
- É a história de Bentinho e Capitu, Sapeca. Uma história muito interessante...
Então tive a idéia de ler aquele pedaço que Bentinho fala da garota, e a descreve como uma garota “de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada num vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e queixo largo”. Li também a cena em que os dois se beijam: “Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até a parede com uma espécie de vertigem, sem fala...”.
Pensei que com aquilo Sapeca também se tornaria uma fã do Machado. De fato, num primeiro momento ela até ficou indecisa, orelha em pé. Mas quando minha mãe chegou Sapeca correu para ela, ganindo baixinho.
- Meu Deus – disse mamãe, agarrando-a no colo. – O que aconteceu com essa cachorra?
Contei o que tinha sucedido. Ela achou graça, mas não quis rir, para não incomodar ainda mais a pobre Sapeca.
- Deixe que eu vou passear com ela. Sei que você esta às voltas com o livro, fique lendo. Mas olhe lá: não me transformar essa cachorra num Bentinho, heim?
Achei a advertência exagerada. Mal sabia eu que um novo Bentinho já estava surgindo – em mim próprio.
Mamãe saiu, eu prometi ficar atento ao telefone, e voltei para o quarto com o livro.
Retomei a leitura e num minuto já tinha esquecido o incidente com a cachorra, completamente absorvido que estava no texto do Machado.
***
Bentinho fica muito abalado ao saber que a mãe, informada por José Dias de seu namoro com a Capitu, reafirma a promessa: o filho devera seguir carreira religiosa. Capitu e Bentinho tentam, com a ajuda de José Dias inclusive, mudar esta situação. Sem êxito. A mãe decide enviar Bentinho ao seminário, prometendo, contudo, que, se dentro de dois anos o rapaz concluir que não tem mesmo vocação para o sacerdócio, estará livre para fazer outra coisa. Bentinho vai, mas antes da partida ele e Capitu juram que irão se casar.
No seminário Bentinho conhece Ezequiel de Sousa Escobar, filho de um advogado de Curitiba. Os dois tornam-se amigos e confidentes. Bentinho leva-o para conhecer a mãe e apresenta-o a Capitu, que agora freqüenta a casa: dona Glória e ela ficaram amigas. Dona Glória até já aceita a possibilidade de um casamento; afinal, como mãe ela cumprira seu papel, enviando o rapaz para o seminário; se o filho chegara a ser padre, ou não, isto já não é seu problema.
José Dias chega a sugerir uma viagem a Roma como o objetivo de pedir ao Papa a revogação da promessa. Mas quem resolve o problema é Escobar, com um engenho argumento: Dona Glória prometera a Deus dar à Igreja um sacerdote, mas este sacerdote não precisa ser necessariamente Bentinho. Se ela adotar um órfão e lhe custear os estudos no seminário, o resultado, do ponto de vista do Senhor, será o mesmo. Consultado, o bispo concorda. Bentinho deixa o seminário, vai a São Paulo estudar e forma-se em Direito. Escobar, que também saíra do seminário, torna-se um prospero comerciante; com Sancha, colega e amiga de Capitu. Bento e Capitu também se casam.
De novo: se o livro terminasse aí, teríamos um final feliz, capaz de alegrar muitos leitores. Mas eu já sabia que o livro não teria esse final feliz, o que me dava muita pena. Bem que eu queria ver Bentinho e Capitu felizes para sempre. Mas será que isto existe? A eterna felicidade dos casai, será que existe?
Meu pai e minha mãe, por exemplo, que todo mundo via como um casal harmônico, exemplar, de vez em quando batiam boca. Nada sério, essas brigas entre casais que sempre acontecem por razões variadas e não raro fúteis: “Você mexeu nas minhas coisas, eu já disse mil vezes que não gosto que mexam nas minhas coisas”, ou então: “Não gosto do jeito como você olha para aquela vizinha”. Em criança, essas discussões me impressionavam, mas depois me dei conta de aquilo fazia parte da vida deles, que se amavam apesar das divergências. Isto era a vida real. Por que a literatura seria diferente?
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