15 de ago. de 2011

CAPÍTULO VII

Preparando a briga.


A primeira pessoa que encontrei no salão paróquia, na semana seguinte, foi o Vitório:

- Tenho novidades – foi logo anunciando.

No dia anterior estivera com o pai em Santo Inácio. Lá falara com varias pessoas sobre o assunto do momento, o julgamento de Capitu, obtendo algumas informações interessantes:

- Já estão com uns dez grupos inscritos, tudo gente de Santo Inácio. Quando eu disse que nós também vamos concorrer, um amigo de papai não pôde deixar de comentar: “Vocês, de Itaguaí, sempre se metendo. Vocês são como o Alienista: acham que são melhores que todo mundo”. Confesso que fiquei preocupado: se outras pessoas vêem o julgamento desse jeito, a coisa meio que vira guerra...

Aquilo me irritou:

- Então é guerra – eu disse. – Se é guerra o que eles querem, é o que terão. E nós temos de nos prepara muito bem.

Com um suspiro, Vitório concordou. Sim, teríamos de fazer um bom estudo do livro. Avisou-me que no intervalo faríamos a nossa reunião e que eu não deveria faltar: decidiríamos coisas muito importantes.

Tão logo soou a sineta (que, na casa paroquial, substituía a campainha do colégio), fui para o pátio, onde Vitório, Júlia e Nanda já esperavam, cada um com suas anotações. Fomos sentar num banco, lá no fundo.

- Bem – disse Vitório -, vamos para os finalmentes. Acho que todos leram o livro de modo que...

- Eu ainda não terminei – interrompi.

Júlia me olhou. Às vezes ela tinha uma maneira de me olhar que me deixava muito irritado. Como se ela fosse um ser superior e eu uma espécie de subalterno.

- Mas a gente tinha combinado... – começou ela.

- Eu sei que a gente tinha combinado, Júlia – respondi, de modo brusco. – Eu sei, você não precisa me dizer. Mas não consegui terminar a leitura, pronto.

Júlia, de inicio surpresa com a minha reação e logo contrariada, começou a dizer que eu era um irresponsável, que aquele era um trabalho de grupo e que, num trabalho de grupo, todos têm de cumprir com a sua obrigação. Eu estava disposto a comprara a briga, mas Nanda, sempre sensata, não deixou:

- Bom, o Queco não leu, então não adianta a gente ficar discutindo. Você acha que até amanhã vai ter lido, Queco?

Eu disse que sim, e ela sorriu, conciliadora:

- Viram como falando a gente se entende? Não há necessidade de brigar, pessoal. Nós somos um grupo, nós temos um objetivo: queremos ajudar a nossa escola. Portanto, vamos em frente, sem perder tempo com essas discussões que só desgastam e não produzem nada de bom. Eu proponho que amanhã a gente se reúna de novo. Aí o Queco vai ter lido o livro, e poderemos comparar nossas opiniões e decidir, como sugeriu Vitório, se vamos entrar no julgamento para acusar ou defender Capitu. Não é uma boa?

Era uma boa, todos estávamos de acordo nisto. Vitório e Júlia aparentemente já tinham até esquecido o bate-boca: conversavam animadamente, comparando suas anotações.

Eu estava magoado. Estava magoado por causa da discussão e estava magoado porque via Vitório e Júlia cada vez mais próximos. Nem consegui prestar atenção nas aulas seguintes. Voltei para casa contrariado e com dor de cabeça. Mas não me deixaria abater. Prometera terminar o livro até o dia seguinte e era o que faria. Em primeiro lugar porque não suportaria ser repreendido de novo, como um garoto relapso; mas, principalmente, porque eu queria, sim, concluir a leitura. A verdade é que a obra me fascinava; porque era uma grande narrativa, claro, a narrativa de um grande escritor, mas também porque mexia comigo.

Chegando em casa encontrei a Sapeca, me olhando e abanando o rabo. Evidentemente estava esperando que eu a levasse para passear, mas fui logo avisando:

- Nem pensar, minha cara. Tenho de terminar o livro.

Acho que meu tom foi categórico, porque Sapeca optou por meter o rabo entre as pernas e foi se refugiar no quarto de mamãe, que, quando chegasse, certamente sairia com ela. Quanto a mim, mergulhei no livro, que agora chegava à sua parte mais dramática.

***

Bento estava tendo sucesso como advogado; a vida para ele e Capitu seria boa, mas havia um problema: não conseguiam ter filhos, e sentiam inveja de Escobar e Sancha, pais de uma filha cujo nome, Capitolina, homenageava Capitu.

É então que Bentinho começa a ter ciúmes. E a primeira coisa que lhe dá ciúmes são os braços de Capitu: “Eram belos, e na primeira noite que o levou nus a um baile, não creio que houvesse iguais na cidade...”. E continua: “Eram os mais belos da noite, a ponto de encher-me de desvanecimento. Conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias”. Nesse momento, Bentinho ainda orgulhoso da beleza de Capitu. Num segundo baile a situação muda de figura. Agora ele vê os braços nus como uma forma de exibição: “Quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que o roçavam por eles mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido”.

Esta crise é interrompida pelo nascimento do filho tão esperado, Ezequiel. Ele cresce, e, menino vivo, curioso, inteligente, faz a alegria de Bentinho e Capitu. Por outro lado os dois casais convivem cada vez mais, até porque Escobar e Sancha agora moram perto. O sonho deles é que Ezequiel e Capituzinha (apelido da pequena capitolina) venham a se casar.

Tudo bem, aparentemente. Mas sobrevém a tragédia: Escobar que era apaixonado pelo mar, ironicamente morre afogado. No enterro algo chama atenção de Bento: o modo de como sua mulher olha para Escobar morto. Tão perturbada fica que quase não consegue fazer o discurso fúnebre. Tempos depois, e é a própria Capitu que lhe chama a atenção para isso, Bento começa a perceber as semelhanças de Ezequiel com Escobar: é como se o amigo ressurgisse diante dele. Resultado: ciúmes (ou mais ciúmes). O mal-estar entre o marido e a mulher vai num crescendo. Pior, Bento já não suporta ver o filho, o qual, muito apegado ao pai, nada percebe. Por fim, o menino é mandado para um internato.

Tão desesperado Bento está, que decide se suicidar. Chega a colocar veneno numa xícara de café. Salva-o a chegada de Ezequiel. Num momento que é verdadeiro clímax, pensa em matar o menino, oferecendo-lhe o café envenenado, mas recua e, num desabafo, diz a Ezequiel que não é seu pai. Capitu entra na sala; quer saber o que se passa. Bento reafirma: não é pai de Ezequiel. Capitu coloca-o contra a parede, interroga-o: qual a razão dessa suspeita? Bento, confuso, não consegue responder, e Capitu conclui: tudo resulta da semelhança casual entre o menino e o falecido Escobar.

Decidem se separar, porém mantendo as aparências. Para isto, partem, com Ezequiel, para a Europa, de onde Bento retorna só. Nunca mais verá Capitu. O tempo passa, morrem d. Glória e José Dias. Capitu também morre, e é enterrada na Europa. Bento agora vive só. Um dia vem visitá-lo o filho. Ressurgem as antigas suspeitas: Bento vê em Ezequiel o retrato de Escobar. Depois de permanecer no Brasil alguns dias, Ezequiel, que é apaixonado por arqueologia, parte para uma viagem de estudos no Oriente Médio, onde vem a morrer.

Sozinho, Bento resolve escrever um livro de memórias. É uma tentativa de, como ele diz, atar passado e presente, descobrir o sentido da sua vida. A tentativa revela-se frustrada. E ele decide escrever um outro livro que será uma historia dos subúrbios do Rio de Janeiro. Ou seja, melhor subúrbio que ciúmes.

Meu Deus! Meu Deus!

Eram três da manhã quando terminei a leitura. Fechei o livro mergulhado num verdadeiro turbilhão de sentimentos contraditórios. Eu não sabia o que pensar, tantas eram a reflexões que me ocorriam.

Uma coisa era certa: havia lido uma grande obra. Não, não era só isso. Eu tinha vivido uma grande experiência. Lá do passado, mestre Machado dera-me um grande presente. Que fantástico livro, o Dom Casmurro! Machado era mestre até em pequenos detalhes. Por exemplo: havia me chamado a atenção o fato de que grande parte dos sentimentos eram transmitidos através do olhar, e sobretudo através do olhar de Capitu. Para Bentinho os olhos da garota eram “olhos de ressaca”: “traziam não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”. Essa alusão ao mar ganha ainda mais sentido quando a gente pensa no modo como Escobar morreu, afogado.

É o olhar de Capitu que faz nascer o ciúme em Bento: quando, por exemplo, os dois estão conversando à janela, um jovem passa, olha e Capitu retribui o olhar; ou quando, já casados, Capitu permanece com o olhar perdido no oceano. E tudo isso culmina com o olhar, que ela lança ao Escobar morto.

Notável, sim. Notável, mas perturbador. O livro tinha mexido comigo. Eu não seria o mesmo depois de ter lido Dom Casmurro. O livro dava nome a algo que eu senti mover-se perto de mim, uma espécie de polvo com mil tentáculos que se agitava, invisível, no escuro mar dos meus tumultuados sentimentos. Ciúme era o nome dessa criatura. Que se apossa de mim como se apossara de Bentinho. Sim, como ele, eu fazia parte da tribo dos ciumentos. Eu também tinha minhas suspeitas em relação a Júlia. Suspeitas que me transtornavam, que não me deixavam em paz.

Tão perturbado eu estava que não conseguia dormir. Levantei-me da cama. À porta do meu quarto estava Sapeca, que me olhou, indecisa. Depois de um momento, contudo, pulou para meu colo. Parecia feliz; feliz, decerto por ter conseguido vencer seu ciúme, por ter conseguido se reconciliar comigo. Ah, se eu pudesse fazer a mesma coisa em relação a Júlia...

Sentado na poltrona da leitura, retomei meus pensamentos, tentando entender o que lera (ou seja, tentando entender também o que se passava comigo). Bento não conseguira vencer o seu ciúme. Por quê? Porque Capitu de fato o traíra? Ou porque sua ilusão a respeito era demasiado forte? Diabos, Machado conseguira seu objetivo: deixa-me em dúvida, como em dúvida deixara milhões de outros leitores. E o fizera de maneira muito hábil. Para começar, tudo que a gente podia saber era informado pelo próprio Bento. Um julgamento em que só o acusador falava – como chegar a um veredito, a uma conclusão?

Eu prometera que levaria para o pessoal algumas anotações escritas e até tentei colocar no papel umas idéias, mas não consegui escrever coisa alguma. Meus pensamentos estavam muito confusos para isso. Pelo menos tinha feito a minha parte: lera o livro. Talvez o grupo, como um todo, chegasse a uma conclusão. A verdade é que naquele momento eu não estava muito interessado no julgamento. Só conseguia pensar na minha relação com Júlia. E oscilava: num momento tentava me convencer de que éramos, sim, namorados, e que eu teria de respeitar a instabilidade dela, aceitá-la como era; em outros momentos, achava que estava na hora de terminar tudo, de romper relações até.

Cansado, deitei-me, e depois de rolar de um lado para outro por uma boa meia hora, finalmente adormeci. Sonhei com um tribunal, um tribunal muito estranho. O juiz era uma figura familiar: o próprio Machado de Assis, cuja foto figurava no livro que eu tinha lido. Ali estava ele, muito elegante nas suas roupas do século XIX, a barba, o pincenê- aqueles óculos presos ao nariz.

Sentou-se à mesa, bateu com o martelo, dando por aberta a sessão. Entrou o promotor da acusação – que era o Machado de Assis. Entrou o advogado de defesa – que era o Machado de Assis. Entraram os jurados, todos clones do Machado de Assis. Só faltava o réu, que não aparecia. Assistindo à cena, eu ia fazer uma pergunta do tipo: “Mas, senhor Machado, quem é o réu?”, porém desisti. Não seria impossível que ele dissesse:

- O réu, meu caro Queco, é você.

***

Acordei tarde e com maus pressentimentos, que se agravaram quando olhei para fora e vi o céu carregado, tão carregado com estivera na véspera da chuvarada que havia resultado no desastre para o Zé Fernandes. A vontade que eu tinha era de virar para o outro lado e continuar dormindo. Mas não dá para fugir dos problemas da vida, né? Levantei, lavei-me, vesti-me, tomei café e segui para o salão paroquial. O pessoal já estava lá; Júlia mal me cumprimentou, o que só me deixou ainda mais chateado. Já Vitório mostrava-se animado como sempre:

- Vamos nos reunir no intervalo, gente. Hoje vamos começar. Vamos dar a partida para a grande jornada.

No intervalo lá estávamos nós, no pátio da casa paroquial, sentados no banco que o pessoal já considerava nosso. A primeira coisa que Vitório perguntou foi se eu tinha lido o livro. Respondi que sim, ele me pediu que desse minha opinião, mas eu quis ficar para o final.

- Então eu começo – disse ele.

Respirou fundo e pronunciou-se:

- Não traiu.

E de imediato começou a listar argumentos: o Bentinho não passava de um paranóico, um cara que se julga perseguido, traído, um sujeito que vive a mercê de suas fantasias

- Ele mesmo afirma que... Deixem-me ver as palavras exatas...

Folheou suas anotações, que enchiam várias páginas do caderno:

- Aqui. “A imaginação foi a companheira de toda a minha existência”, é o que ele diz. Bom, imaginação pode ser uma coisa muito boa. Escritor tem de ter imaginação, compositor tem de ter imaginação, inventor tem de ter muita imaginação. Mas não é dessa imaginação que Bentinho está falando. A imaginação dele é doentia, gente. O Bentinho vê coisas que não existem, disso eu tenho certeza. O problema é que a gente só pode se guiar pelo que ele diz, pela maneira como ele vê as coisas. E isto complica bastante o raciocínio. Se Machado fosse o narrador, tudo bem. Machado falou, tá falado. Mas, Bentinho? Não dá para acreditar no Bentinho, na imaginação do bentinho. Aliás, acho que Machado pensava a mesma coisa quando escreveu o livro. O Machado, a gente vê, é um cara meio irônico, crítico da sociedade. Embora ele fale em nome do Bentinho, não deve ter muita afinidade com esse personagem, que era de família meio classe alta, enquanto a Capitu, como o próprio Machado, vinha de um meio pobre. Conclusão: pra mim o Machado queria mostrar que o Bentinho estava meio biruta, de tanto ciúme.

- Aí eu vou discordar de você – disse Nanda, para minha surpresa; a suave Nanda, a gentil Nanda, discordando? E maior surpresa ainda foi a opinião dela: - Eu penso que a Capitu pode, sim, ter tido um caso com o Escobar.

Diante da surpresa de Vitório, apressou-se em acrescentar:

- Não que eu ache isso um horror, de jeito nenhum. Essas coisas acontecem, a gente ta vendo isso todo dia. A mulher do Jaime não o abandonou? E o Jaime não chiou, não se desesperou, continuou vivendo a vida dele. Ele é um cara maduro, sabe que as pessoas mudam. A Capitu mudou. Em algum momento ela mudou. Apaixonou-se pelo Escobar, ou achou que estava apaixonada pelo Escobar, fizeram amor, ela engravidou... O que me parece muito significativo. Durante muito tempo ela e Bentinho não haviam tido filhos. Por quê? Meu palpite: o Bentinho não conseguia engravidar a mulher. Capitu não quis se privar da maternidade e foi em frente. Teve seu caso com Escobar e engravidou. Matou dois coelhos com uma paulada.

Vitório estava espantado: parecia estar descobrindo uma nova Nanda, meio gaiata, meio cínica. Já Júlia mal conseguia disfarçar a irritação. Amizade à parte, estava na cara que não concordava com Nanda. E, de fato, partiu para o ataque:

- Essa não, Nanda. Essa não. Nada do que você falou aconteceu. A Capitu não teve caso nenhum com o Escobar, não ficou grávida dele. É ciúme do Bentinho, ponto. O Machado mesmo diz que o cara está dominado por “um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme”. Palavras do autor, não minha. Ele vai mais adiante e diz...

Consultou o caderno:

- Diz o seguinte: “Tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher, não fora ou acima dela”. Ou seja, o cara tem ciúmes até dos pensamentos da mulher, Nanda! O Vitório tem razão: é completamente perturbado, o tal de Bentinho! Ele tem ciúmes “de tudo e de todos”; palavras dele, heim? Palavras dele, não minhas. E também confessa: “Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança”. E, note, o cara sabe que está confuso, que pode estar vendo coisas, mas não se dá por vencido “Não é claro isto, mas nem tudo é claro na vida ou nos livros”. Também reconhece a sua “fraca memória”. Agora, é claro que um cara que não confia nem na própria memória não pode confiar na mulher. Lá pelas tantas ele está inventando coisas, coisas que nem sabe se aconteceram ou não.

Disse e sorriu, triunfante, decerto achando que tinha liquidado os argumentos de Nanda. Estava enganada. A garota voltou à carga, apresentando outras evidências:

- E aquelas duas vezes em que Escobar visita Capitu em casa, na ausência de Bentinho? Você não acha isto suspeito, Júlia? Mas para mim a maior prova de que Ezequiel é filho de Escobar é a semelhança entre os dois. Muita coincidência, né, minha amiga? Muita coincidência. Eu só quero lembrar aquela frase que o povo diz há muito tempo e que o livro aliás cita: “O filho é a cara do pai”.

Agora Vitório entrava na discussão:

- As visitas não provam nada, Nanda. Tanto que a Capitu acaba contando ao Bentinho que Escobar veio visitá-la e diz que só não falou antes para que o marido não ficasse desconfiado. Ela sabia que o cara era ciumento.

- E na segunda visita? – Nanda não se deixava convencer. – Vou lembrar a você: Bento volta da ópera e encontra Escobar na sua própria casa. Apareceu ali, sem mais nem menos; na ausência do marido, vem visitar a mulher, coisa muito suspeita. Bento, numa boa, numa boa, heim?, não comenta nada e até insiste para que o amigo fique. Mas Escobar, que decerto já fez o que tinha que fazer, dá uma desculpa e se manda. Claro, ele não é trouxa. Aí o Bento fica se perguntando: por que, mesmo, a Capitu não foi comigo ao teatro? Doença, era a desculpa que ela tinha dado. Só que quando Bento entra, vê que a Capitu não parece doente coisa nenhuma. A Capitu mente. Aliás, pra mim ela tem outra por dentro. É pobre, é de família humilde, mas tem suas ambições. Prova disso é aquela parte em que ela aconselha o Bentinho sobre como lhe dar com o José Dias: “Mostre que há de vir ser dono da casa, mostre que quer e que pode”. Pra fraquinha desamparada, a Capitu não dá. Ela aí está se revelando mandona.

Interrompeu-se ofegante, mas logo retomou a argumentação:

- Tem mais uma prova, no velório do Escobar a Capitu... Vou ler a frase: “Olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lagrimas poucas e caladas...”.

- Mas Escobar era amigo deles! – interveio Júlia, exaltada. – se morresse um amigo seu, você não choraria? Essa não, Nanda. Essa não. Você choraria, tenho certeza.

- Pode ser – replicou Nanda. – Mas, já que você entrou na discussão, quero lhe lembrar que você ainda não disse nada sobre aquele argumento importante que eu usei.

- Qual argumento?

- A semelhança entre o menino Ezequiel e Escobar.

Até aquele momento, nós estávamos todos sentados num banco do pátio. Mas aí Júlia se pôs de pé, brava:

- Semelhança não quer dizer nada, querida. Nanda. Tem muita gente que é parecida e não é nem parente. O próprio Machado admite isso quando fala da semelhança de Capitu com a mãe de Sancha. Lembra do comentário do pai de Sancha? Lembra? Ah, não lembra. Mas eu anotei. Está aqui.

Consultou as anotações:

- “Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas”, é o que ele diz.

Calou-se, com uma expressão triunfante no rosto. Vitório olhou-a, ela olhou Vitório. E o olhar que trocaram me encheu de amargura. Não era só o olhar de parceiros numa disputa; era um olhar cúmplice, não sei se vocês me entendem. Senti-me como Bentinho: traído. Eu, para eles, já nem existia.

Faltava minha opinião. Vitório voltou-se para mim:

- E você? O que diz?

Eu só podia responder com a primeira palavra que me veio à mente:

- Traiu.

Pude notar que Vitório ficou perturbado. Mas, acostumado a disputas e debates, tratou de disfarçar:

- E pode se saber por que você pensa assim?

- Porque foi a conclusão a que eu cheguei, ora. - E acrescentei, de modo brusco, indelicado até: - Acho que não preciso dar explicações. Vocês já falaram bastante, já levantaram todos os argumentos.

Júlia nem sequer me olhava: bufava, furiosa. Começou a juntar suas coisas como se estivesse querendo ir para a aula, ainda que a sineta não tivesse soado. Vitório tentou uma manobra conciliatória:

- Quem sabe a gente discute de novo amanhã?

Ninguém disse nada. Sabíamos que adiar a discussão não resolveria nada, Porque claramente estávamos diante de um impasse: dois votos de um lado, dois de outro. Vitório insistiu:

- Ou quem sabe alguém muda de idéia...

Claramente estava se referindo não a mim, mas à Nanda, que no entanto parecia irredutível. O que me surpreendia. Sempre pensara nela como uma garota quietinha, tímida até. E agora a via como uma jovem de vontade férrea, dona de seu nariz e de suas opiniões. E, detalhe: bonita. Nunca me chamara a atenção pela beleza, que, naquele momento, e talvez por causa do fato de ela ter decidido se assumir como pessoa, ficava evidente.

Mas eu não estava afim de flertar. Não naquele instante, pelo menos. Sentia-me deprimido com o que tinha acontecido, com a maneira pela qual Júlia me tratava. Naquele momento tive a clara, a dolorosa sensação de que nosso namoro, precário namoro, estava definitivamente chegando a seu fim. E um cara que se sente rejeitado não tem condições de começar um namoro novo imediatamente; ao contrário, o próprio Bentinho teria resolvido seu problema com a Sancha.

Uma coisa era certa: Eu não mudaria o voto. Era a forma de demonstrar à Júlia o meu protesto (e também ao Vitório, caso estivessem, como eu suspeitava, namorando). Por tanto, era mesmo dois contra dois.

- Se pelo menos fôssemos cinco... – suspirou Vitório.

Mas não éramos: não havia ali voto decisivo. Estávamos divididos, dois de um lado, dois de outro. E, dividido, não tínhamos como enfrentar os concorrentes de Santo Inácio ou de qualquer outro lugar.

- Bem – disse Vitório, num tom conciliador -, acho que neste momento não chegaremos a uma conclusão. Estamos todos de cabeça quente. Mas não vamos esquecer uma coisa, gente: entramos nisso para conseguir grana para o colégio. Este é o nosso objetivo maior e temos de lutar por ele. Vamos dizer que o primeiro tempo do jogo terminou empatado: tudo bem, isto acontece. O que eu proponho é o seguinte: cada um de nós pensa de novo sobre o Dom Casmurro. Vamos tentar arranjar novos argumentos, quem sabe com a ajuda de professores, de nossos pais, de pessoas que a gente conhece... Ainda temos algum tempo até o julgamento.

Trocaram um olhar de novo, ele e a Júlia, e nesse momento a fúria me invadiu. “tô fora”, era o que eu dizer. Dizer não, berrar. Berrar a plenos pulmões, para que todo mundo ouvisse, o colégio, a cidade, o mundo, para que todo mundo soubesse que eu não aceitava aquela sacanagem. Saltei do banco e naquele momento desabou a chuvarada. Corremos para o salão paroquial. Não agüentei mais: as lagrimas corriam pelo meu rosto. Felizmente confundiam-se com as gotas da chuva.

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