Guerra é guerra.
Chegando em casa encontrei um dos meus irmãos, o Nestor, estudando Direito, que tinha vindo do Rio para passar o fim de semana em casa. Eu era, como dizia meu pai, a copia Xerox do Nestor: semelhança maior seria impossível. Abracei-o, com a maior efusão possível. Ele logo percebeu que alguma coisa tinha acontecido:
- Você está com cara de velório, mano. O que aconteceu?
Tentei desconversar, disse que não era nada, só uma gripe, mas Nestor não deixou se enganar:
- Conheço você desde o berço, cara. Era eu quem tomava conta de você quando o papai e a mamãe saíam... Eu sabia quando você estava bem e quando não estava, não precisava nem perguntar. E agora estou vendo que você não está bem, e não é gripe coisa nenhuma. Vamos lá, diga: o que o incomoda, Queco?
Tentei falar, mas não consegui: a emoção me embargava a voz. Ele se deu conta de que eu estava vivendo um momento difícil e deduziu que aquilo tinha a ver com a Júlia: sabia de nossas complicadas relações. Tentou consolar-me como pôde, dizendo que aquilo acontecia, que ele mesmo já tinha brigado com várias namoradas:
- E é sempre aquela tragédia. A gente pensa que vai morrer. Numa das vezes perdi completamente a vontade de comer. Senta à mesa, olhava a travessa com os bifes, com o arroz, o feijão, e pensava: para que a comida, se a vida não tem mais graça? Levantava da mesa e ia para o quarto chorar em silêncio. Depois me recuperei, mesmo porque os bifes que a mamãe faz, você sabe, são excelentes.
Tentei sorrir. Animado, ele foi em frente, pedindo que eu esquecesse aquilo, que não desse bola para a briga:
- Amanhã ou depois você nem vai lembrar desse momento ruim.
Negativo. Eu lembraria, sim. Lembraria porque o episódio que eu acabara de vivenciar tinha me machucado demais. Sobretudo aquele olhar que o Vitório e a Júlia haviam trocado... Aquilo era traição, clara e óbvia traição. Eu me sentia enganado, como o Bentinho. E os ciúmes cresciam cada vez mais.
Decidi que manteria meu voto: Capitu tinha traído. Tratei de reler o romance em busca de mais provas. Quanto mais procurava, mais encontrava, claro; é sempre assim a gente acha aquilo que busca. Capitu era má, era fingida, eu concluía. Já tinha mostrado quem era muito antes do casamento. Desde garota o plano dela era dominar o Bentinho. E tinha conseguido até mesmo pelo olhar. Olhar de ressaca: grande expressão do Machado. O que é ressaca? É o mar revolto, enraivecido, querendo invadir a terra. O mar que não conhece o seu limite, que não sabe o seu lugar. Ah, mas comigo isso não aconteceria. Júlia não me dominaria. Ela veria com quem estava lidando.
***
Eu passava por ela, no salão paroquial, e fingia não vê-la. Ela fazia a mesma coisa, ficava de nariz empinado sem me olhar. Se era uma briga para saber quem seria o primeiro a dar o braço a torcer, ela não perdia por esperar.
Àquela altura, o nosso rompimento já era público. Até o Jaime ficou sabendo que eu não estava numa boa e ligou:
- Estou com saudades de você, Queco. E além disso desconfio que está na hora de a gente bater um papo. Você não quer me fazer uma visita?
Fui. Ele ainda estava em casa, de pijama, convalescendo dos problemas que tivera e dos quais se recuperava com alguma lentidão. Recebeu-me com o carinho de sempre, mas evidentemente estava preocupado comigo e foi logo dizendo por quê:
- Essa divergência no grupo de vocês já é uma coisa chata. E a sua briga com a Júlia não ajuda em nada.
Perguntei como ficara sabendo do assunto. Ele respondeu de maneira vaga, dizendo que o pessoal da escola tinha comentado a respeito. Na verdade, ele estava achando que eu rompera com a Júlia depois da discussão sobre o livro. Agarrou-me o braço:
- Escute, Queco: você não pode romper com a sua namorada por causa de opiniões diferentes. Essa discussão, Capitu “traiu ou não traiu”, no fundo não tem muita importância. É um jogo que o Machado faz com os leitores, um jogo ao qual o Brasil inteiro acabou aderindo. Como tema de concurso pode até ser válido; se vocês ganharem o prêmio e puderem arrumar a escola com o dinheiro, será mais válido ainda. Agora, o que tem importância mesmo, no livro, é o ciúme do Bentinho. Machado mostra como esse homem acabou sendo dominado pela suspeita; a vida dele passou a girar em torno disso.
Ficou um instante em silencio. Aparentemente, hesitava em me dizer algo, algo que para ele era muito importante, mas penoso. Engoliu em seco e por fim foi em frente:
- Você sabe, Queco, que eu me separei de minha mulher. Um dia ela me disse que tinha encontrado outro homem, e que gostava dele, e que queria viver em sua companhia. Foi um choque. A gente estava casado há cinco anos, mas depois de pensar muito decidi aceitar aquilo como fato consumado: seria melhor para todos. Nós nos separamos como amigos, e amigos continuamos. Se eu tivesse me deixado dominar pelo ressentimento, minha vida, e a vida de minha ex-mulher, teriam se tornado um inferno. Mas a gente tem de agir com equilíbrio, com maturidade. E é isto que eu lhe peço, Queco. Peço-lhe como seu professor, como seu amigo; amigo mais velho, mas amigo. Por favor, não transfira para a sua vida particular os problemas que Bentinho teve com Capitu. Promete?
Não prometi. Estava muito magoado para fazê-lo. Gostava do Jaime, gostava muito dele, faria qualquer coisa que me pedisse, menos aquilo. Além disso, e apesar de suas boas intenções, ele estava enganado. Minha bronca com a Júlia não se resumia a um debate sobre o Dom Casmurro, ou sobre o que a Capitu tinha feito na realidade. Eu achava era que a Júlia estava me sacaneando, estava me traindo. Queria me vingar, e levaria a vingança até o fim. O meu voto era importante? Pois então eles não teriam o meu voto. Se isso arrebentasse o nosso grupo, se isso se tornasse um obstáculo para o nosso trabalho, azar. A mim pouco importava.
Vendo que eu estava irredutível, Jaime suspirou:
- Veja lá o que você vai fazer – disse.
Naquele momento a enfermeira chegava para lhe fazer um curativo e aplicar uma injeção, por isso fui embora. Mas o dia não terminaria sem uma outra contrariedade.
Naquela mesma noite Nanda ligou, pediu que fosse à sua casa; tinha uma coisa importante para me dizer. Fui até lá. Ela estava esperando na porta:
- Não quero que meus pais e irmãos escutem a nossa conversa.
Muito embaraçada, contou que havia pensado bastante e que chegara a uma conclusão: não examinara a questão do “traiu ou não traiu” com a devida serenidade. Na verdade, ficara irritada ao ver Vitório e Júlia tão unidos na “absolvição” de Capitu e, só por birra resolvera adotar a posição oposta.
- Mas isto não é honesto, Queco. Reli o livro e minha opinião agora é de que o Bento foi vítima de ciúmes. Como eu. E como você, acho.
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Porque na nossa reunião inicial, eu ficara com a certeza de que a Nanda estava a meu lado, tão veemente fora sua argumentação. Agora ela simplesmente virava a casaca. Ela me abandonava, me transformava na ovelha negra do grupo. Por que fazia isto? Uma explicação me ocorreu: ela estava querendo dar força ao Vitório, queria agradá-lo, e dessa maneira competiria com a Júlia.
Como que adivinhando meu pensamento, ela disse, mirando-me nos olhos:
- Acredite, Queco, eu estou mudando de idéia por convicção, não estou querendo puxar o saco de ninguém. Nem mesmo a questão da escola estar pesando aí. Acho importante a gente ganhar esse concurso, vou fazer toda a força para isso, mas antes de tudo procuro ser justa, procuro ser equilibrada, procuro ser coerente. É isso.
Era aquilo, e eu estava só, absolutamente só. A votação agora estava desempatada, meu voto não valia mais nada e tudo o que eu teria a dizer ao grupo, na próxima reunião, era se queria u não continuar e, se não quisesse, não faria a menor diferença.
- Você não está zangado comigo, está? – perguntou ela, os olhos úmidos.
Tentei bancar o superior:
- Eu? Zangado? De maneira alguma, Nanda. Zangado? Eu? Por quê? Você mudou de idéia, tudo bem, eu respeito. Minha posição é diferente, mas não é por isso que vamos brigar. Afinal, somos civilizados, precisamos aprender a aceitar as diferenças de opinião, o debate. O importante é o que o grupo vai decidir.
- Quem sabe você muda de idéia também... – insinuou ela, tentando gracejar.
E aquilo sim, aquilo me tirou do sério. Voz alterada, comecei a dizer que eu era um cara coerente, não desses que dizem ora uma coisa, ora outra. Nanda me olhava, visivelmente impressionada, assustada mesmo.
- Nossa, essa coisa mexeu com você – disse por fim.
Uma pausa, e continuou:
- Acho que isso tem a ver com sua relação com a Júlia. Eu sei que vocês não estão numa boa. Ela não me falou nada, embora sejamos amigas, mas já pude reparar que vocês nem se cumprimentam.
Colocou as mãos nos meus ombros e falou, num tom que era quase de súplica:
- Não faça isto, Queco. Não se deixe dominar pelo ciúme. Veja o que aconteceu com o Bentinho, no livro. No final, o cara já estava vendo traição em qualquer gesto da pobre Capitu...
- Capitu traiu – eu disse, seco. – E não é a única traidora nesta história toda.
Virei as costas e fui embora.
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