22 de ago. de 2011

CAPÌTULO X

Machado “escreve” uma carta.


Para começar, eu tinha de arranjar papel da época do Machado. Não podia simplesmente pegar uma folha tamanho oficio e ali escrever as minhas mal-traçadas linhas. E onde arranjar papel da época?

Por incrível que pareça, isto não foi difícil, graças ao Francesco, o meu tataravô. Chegando ao Brasil, ele se dedicara a escrever um diário de suas primeiras impressões do Rio de Janeiro. Um diário que ele não terminou. No caderno que comprara para isso (exatamente em 1899, ano da publicação de Dom Casmurro), várias páginas tinham ficado em branco. “Em branco” era modo de dizer, já que exibiam uma coloração amarelada, de papel muito velho. Eu sabia disso porque o caderno, conservado com orgulho por meu pai, volta e meia era mostrado a vizinhos e visitantes, eu sabia onde estava o tal caderno, de modo que naquela mesma noite, todo mundo dormindo, fui até lá e cuidadosamente cortei uma folha, bem manchada e amarelada.

Nessa folha eu teria de escrever como o Machado: à mão e usando o material de escrita da época. Onde conseguir esse material?

Resolver esse problema já foi um pouco mais difícil. Tive de ir à loja de antiquário, que vendia canetas muito antigas. Comprei uma delas, e também um frasco de tinta de escrever. Investimento não pequeno: metade de minhas economias, do dinheiro que eu vinha guardando havia meses e que seria destinado a uma bicicleta ultra-equipada. Agora, adeus bicicleta, mas o sacrifício valeria a pena; ao menos era o que eu esperava.

***

A etapa seguinte mostrava-se bem complicada. Eu teria de imitar a letra de Machado. Agora: onde encontraria amostras da caligrafia do “Bruxo do Cosme Velho”? O apelido me deu uma dica: eu deveria ir ao Rio, mais precisamente à casa de Machado, ou seja, à Academia Brasileira de Letras, por ele fundada. Eu sabia, porque o Jaime tinha nos contado que a Academia conservava muita coisa de Machado; a sua mesa de trabalho, por exemplo, e originais de suas obras.

A Academia fica no Rio de Janeiro, mas de Itaguaí até a antiga capital federal, a distancia é pequena. Alegando à Sandra que eu precisava consultar um médico (e precisava mesmo: um médico da cabeça...), faltei à aula e fui até lá. Segui direto para o endereço que tinham me dado, na Avenida Presidente Wilson, centro do Rio de Janeiro. Um lugar muito bonito, aquela casa em estilo antigo ao lado do prédio mais moderno, onde funcionava a parte administrativa. Subi os degraus e deparei-me com uma estatua em bronze de Machado de Assis. Ali estava ele, sentado, olhando-me fixamente como se perguntasse: “Tens certeza do que vais fazer, meu jovem amigo?”.

Uma pergunta a que eu não saberia responder. Mas meu problema naquele momento não era responder a imaginarias perguntas do Machado e sim entrar na academia, ir ao arquivo e examinar a caligrafia nas cartas dele ali guardadas. Sozinho, eu não teria a menor chance de conseguir o que queria, mas a sorte me ajudou: naquela tarde, como aliás freqüentemente acontece, havia uma turma de alunos visitando a Academia Brasileira de Letras, conduzidos por uma professora de literatura. Misturei-me a eles, Fomos até o arquivo ver objetos de Machado de Assis. Ali estavam também cartas escritas pelo próprio escritor. Eu levara comigo uma câmera, escondida; aproveitei um momento em que ninguém estava olhando e rapidamente tirei fotos das cartas. Também descobri, na livraria, livros que reproduziam estes originais, um dos quais comprei.

De volta a Itaguaí, comecei a treinar. A verdade é que não era difícil imitar a letra de Machado, mesmo porque, devo dizer, eu tenho uma habilidade especial para esse tipo de coisas. Lá pelas tantas eu poderia facilmente ter preenchido um cheque do escritor sem despertar a menor suspeita de seu banco. Minha letra estava igual à dele.

Agora sim, vinha a parte mais difícil.

A carta.

Para começar eu não dirigiria essa missiva a nenhuma pessoa em particular. Começaria simplesmente com um “prezado amigo”. Depois, teria de usar uma linguagem do fim do século XIX – com a qual eu já estava um pouco familiarizado, graças, exatamente, ao livro Dom Casmurro.

Mas não fiquei só nisso. Na biblioteca, procurei livros com a correspondência de escritores famosos do passado. Não achei muita coisa, mas o pouco que encontrei ajudou. Fiz vários rascunhos da carta, até chegar à forma que queria – um bilhete curto, cordial mas não efusivo. Começava com o “Prezado amigo” já mencionado, agradecia o interesse desse “prezado amigo” pelo Dom Casmurro e respondia à pergunta supostamente formulada pelo imaginário missivista: “Se o amigo quer saber minha opinião de autor acerca do que aconteceu em Dom Casmurro, aqui a tem: Capitu traiu”. Mais algumas considerações e logo aquela antiga formula com que as cartas terminavam: “Sem mais para o momento, fico, atenciosamente”.

Reli o que tinha escrito.

Deus, será que aquilo passaria por uma carta do Machado de Assis? Do grande Machado de Assis, do mestre da literatura brasileira? Achei que sim. Eu precisava achar que sim, que, respondendo meio apressadamente para um leitor qualquer, o Machado resumisse sua opinião acerca de Dom Casmurro daquela maneira tão simples, tão sumária. E precisava achar que também para os outros a carta seria convincente. Mas quando a gente precisa se convencer de alguma coisa a gente se convence, não é mesmo? Não é difícil a pessoa iludir a si próprio, é um processo que, quando começa progride sozinho.

O rascunho pronto, eu agora precisava transcrevê-lo adequadamente para a velha folha de papel do caderno do meu antepassado.

Aquilo foi difícil. Gente, aquilo foi muito difícil. Em primeiro lugar porque eu, que só usava caneta esferográfica, não estava familiarizado com o material de escrita; tinha medo de estragar a pena da caríssima caneta. Mas pior era a consciência culpada. De repente eu me dava conta do que estava exatamente fazendo; por causa de uma briga com amigos e com minha namorada (seria mesmo?) eu estava falsificando a escrita do grande Machado de Assis. Era tamanho meu nervosismo que minha mão tremia, eu não conseguia me controlar. Finalmente, respirei fundo e fui em frente. Num esforço monumental, copiei as seis linhas do rascunho.

Olhei o resultado: estava satisfatório. Uma ou outra letra um pouco tremida, mas isto até dava autenticidade ao documento; Machado já não era jovem à época em que o teria escrito.

Assinei: Machado de Assis.

Respirei fundo de novo. Pronto. A coisa estava feita.

Dizem que um momento decisivo na historia da humanidade ocorreu na Roma antiga quando Julio César, à frente de suas tropas, cruzou o rio Rubicão, o que ele, de acordo com a legislação romana, não poderia fazer. “Cruzar o Rubicão” ficou como sinônimo de uma decisão ousada, cheia de riscos, uma decisão sem volta. Pois bem, naquele momento eu tinha cruzado o Rubicão. Agora, era enfrentar. Agora era como César: vencer ou morrer. Olhei o papel amarelado na minha frente, a carta com a caprichada caligrafia machadiana, e conclui: a sorte estava mesmo lançada.

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