A farsa segue em frente.
Meu problema agora era inventar uma história plausível sobre a carta; uma história muito bem bolada, uma história digna de Machado de Assis. E me achava perfeitamente capaz de fazê-lo: agora que começara a mentir, agora que dominara a arte da trapaça, não precisaria mais, para o Bem e para o Mal – mais para o Mal, na verdade, mas no momento, preocupado em enganar o grupo (enganar a mim próprio), eu não me dava conta disso.
A história, então. A história de como a carta chegara às minhas mãos.
Primeiro pensei em dizer que eu a tinha recebido de presente do meu vizinho, o seu Sinzenato, um velhinho muito culto, grande leitor. Ele havia falecido poucos dias antes e nas ultimas semanas de sua vida, a pedido de mamãe, eu ajudara a cuidar dele, fazendo compras para a casa, ajudando-o a se locomover. O pessoal da escola sabia disso, e o Jaime tinha até me elogiado em publico pela dedicação a uma pessoa doente.
Pois bem, eu contaria que, em retribuição, o ancião resolvera me dar um presente: aquela carta, encontrada em um velho livro na biblioteca que pertencera a seu pai. Eu acrescentaria que, de inicio, nem quisera receber um documento tão valioso, preciosidade que deveria estar no museu ou na Academia Brasileira de Letras; mas seu Sinzenato insistira, dizendo que um dia aquilo seria muito importante para mim – palavras proféticas, como se o velho tivesse adivinhado que um dia estaríamos metidos no julgamento de Capitu.
O fato de o seu Sinzenato ter morrido ajudava e atrapalhava. Ajudava porque ele não poderia contestar a história; atrapalhava porque não poderia confirmar esta mesma história. E eu precisava de alguém que corroborasse a minha narrativa, que pudesse dar seu testemunho. Precisava de alguém que estivesse vivo. Depois de matutar muito cheguei à pessoa: o seu Godofredo.
Era o dono de um sebo que ficava no centro de Itaguaí. Uma livraria pequena, cheirando a mofo, e entulhada de livros velhos. Meu pai dizia que nem o próprio Godofredo sabia quantos livros havia ali, o que provavelmente era verdade. Cada vez que alguém queria se desfazer de uma biblioteca, era a Godofredo que recorria. Resultado: os livros acumulavam-se em prateleiras, em cestos, em pilhas no chão. Livros antiqüíssimos, alguns datando do século XIX. E o seu Godofredo não dava muita bola para a loja, ficava atrás da caixa registradora, lendo o jornal, e nem sequer tentava fiscalizar os rapazes que, volta e meia, e aproveitando suas freqüentes distrações, roubavam livros e saiam correndo. O desligado Godofredo seria o meu cúmplice. Cúmplice involuntário, mas cúmplice. Com a “carta do Machado” escondida no blusão, fui até lá. Seu Godofredo me viu entrar, cumprimentou-me: ele me conhecia, não só porque em Itaguaí todo mundo mais ou menos se conhece, mas também porque eu já tinha estado no sebo algumas vezes, atrás de uns livros recomendados pelo Jaime.
Perguntei onde estavam as obras de Machado de Assis. Ele não sabia bem:
- Por ali, naquelas prateleiras do fundo.
Havia, de fato, alguns antigos livros do Machado ali, incluindo vários exemplares do Dom Casmurro, um deles datando do começo do século XX. Dentro desse coloquei a carta. Fui até o caixa, paguei (não foi pouco; o restante de minhas economias). Fingi que ia sair, mas então dei meia-volta:
- Diga-me uma coisa, seu Godofredo: quando a gente compra um livro aqui, compra tudo o que tem dentro, certo?
Ele me olhou sem entender, mas disse que sim, tudo que estivesse no livro passaria a ser do comprador.
- Neste caso – continuei – acho que sou dono disso aqui.
E mostrei-lhe a carta. Ele pegou-a, intrigado, leu, arregalou os olhos:
- Mas é uma carta do Machado de Assis! Que coisa fantástica! Uma carta do Machado de Assis! E eu, que nunca descobri esta carta!
Estava impressionado – e chateado: tivera uma preciosidade em sua livraria por muito tempo, não se dera conta disso, e agora era tarde para reclamar. Fazendo força para manter o chamado espírito esportivo, felicitou-me:
- Uma carta de Machado de Assis deve valer um bom dinheiro, rapaz. Mais do que qualquer dos livros que tenho por aqui. Mais do que todos os livros deste sebo juntos.
Eu disse que não tinha duvida quanto àquilo e perguntei-lhe se poderia contar com o seu testemunho para narrar o que acontecera. Ele disse que sim: afinal eu era uma pessoa conhecida, em quem se podia confiar. Pediu para ler a carta mais uma vez, sacudiu a cabeça, impressionado:
- Então, para o Machado, Capitu traiu. Quem diria.
Esta foi a história que contei, quando, no dia seguinte, mostrei a carta ao pessoal. Devo dizer que preparei cuidadosamente a encenação: coloquei o papel num envelope plástico, como se ele precisasse ser cuidadosamente protegido. E ao exibir esse envelope ao pessoal, pedi a eles o maior cuidado. Os três se aproximaram e miraram atentamente o conteúdo do envelope. Estávamos todos tensos, muito tensos. A suposta carta, claramente, me separava do restante do grupo. Era eu de um lado, eles do outro.
Vitório me olhou, claramente desconfiado. Ele sabia do meu passado de colador, sabia que não raro eu inventava histórias. Não seria difícil para ele me desmascarar. Mas vejam a força do desespero: eu precisava sustentar o olhar ante o dele e era o que eu fazia. Enfrentava o olhar dele, e o olhar de Nanda, e principalmente, enfrentava o olhar de Júlia, no qual eu via, além de desconfiança, muita raiva.
Ela procurava, em meu rosto, em meus olhos, evidencias da mentira. Mas, para seu desgosto (desgosto que eu adivinhava e que, devo dizer, me dava imenso prazer), não as encontrava. E não as encontrava em primeiro lugar porque eu, naqueles poucos dias, aprendera a desenvolver a técnica da simulação, do fingimento, e também porque os invisíveis canais de comunicação que se haviam formado entre nós ao longo de muito tempo de convivência agora estavam desfeitos, ou quase. “Bem feito” eu pensava. “Você me sacaneou? Agora pague o preço.” Mas ela não deixou de levantar uma suspeita:
- Admitindo que esta carta seja verdadeira, Queco, não é muita coincidência o fato de você tê-la encontrado logo agora?
- Não – repliquei. – Não é coincidência. Encontrei a carta porque tive a curiosidade olhar uma edição antiga do Dom Casmurro. Se não fosse eu, teria sido um outro. Mas o destino, para falar como o Vitório, quis que fosse eu.
Vitório preferiu ignorar a provocação:
- Admitindo que a carta pé mesmo do Machado de Assis – disse -, estamos diante de um fato consumado. E temos de aceitar essa nova situação. Os nossos argumentos perdem completamente a força. O grupo achava que Capitu não traiu. Agora...
- Um momento – bradou Júlia. – O grupo “achava”? Não: o grupo “acha” que Capitu não traiu. Eu, pelo menos, penso assim. Li o livro, Vitório. Li o livro, como você leu, e como a Nanda leu. A gente tinha chegado à conclusão de que esse tal de Bentinho é um ciumento doente, desses que vêem traição em tudo, até num olhar. A pobre da Capitu pagou o pato, Vitório. Foi isso que a gente concluiu, e não vejo nenhuma razão para a gente mudar de idéia. Agora que vem Queco com uma tal de carta... Tá bom, pode ser que a carta seja verdadeira, que o Machado de Assis pense diferente de nós. A mim pouco importa, eu fico com a nossa analise, com as nossas conclusões. Um autor pode se enganar quanto ao trabalho dele, não pode? É a mesma coisa que você ter, por exemplo, um bicho pousado em suas costas. Ele está em você, ele está mais perto de você do que de qualquer outra pessoa. Isso não quer dizer que você vê o bicho melhor do que os outros, ao contrario.
Disse isso e se calou, ofegante, achando talvez que tinha convencido Vitório e Nanda.
Não tinha. Nanda, olhos baixos, não dizia nada. Vitório suspirou:
- Talvez você tenha razão, Júlia. Mas prova é prova, ainda mais prova escrita. Uma carta do Machado... A propósito, você mostrou essa carta para gente que entende, Queco?
- Claro – menti, e àquela altura era incrível a facilidade com que eu mentia. – Mostrei, sim, para um pessoal da Academia Brasileira de Letras. Ali tem pessoas que passam o dia estudando a obra do Machado, as cartas do Machado... Tem especialistas na caligrafia dele... Esse pessoal confirmou: a letra é do Machado.
- Então – arrematou Vitório seco -, a duvida está liquidada. O que nós temos de fazer agora...
- Um momento – disse a Júlia. – A carta existe. Mas isto não significa que tenhamos de mudar nossa argumentação.
- Como? – Vitório não estava entendendo.
- Ninguém diz – prosseguia ela – que o nosso amigo Queco é obrigado a mostrar a carta agora. Ele pode esperara até que o julgamento termine. Se o segredo ficar entre nós, podemos prosseguir com a nossa argumentação.
Senti que estávamos chegando a um momento decisivo. E de fato ela se virou para mim, fitou-me, os olhos úmidos:
- Eu lhe peço, Queco, em nome da nossa amizade, que você guarde essa carta por mais uns dias. Eu lhe peço, Queco.Você faz isto por mim, Queco? Faz?
Dizem que a vingança é um prato que agente come frio. Depois que passou o calor da briga. O prato de minha vingança não estava só frio, estava gelado. Mas não seria por isso que eu deixaria de saboreá-lo. Olhei-a firme:
- Não. Não vou fazer isto. A verdade tem de ser revelada custe o que custar.
Ela empalideceu, claramente abalada, mas não disse nada. Nem precisava dizer; a expressão amargurada de seu rosto para mim já era suficiente: eu estava, enfim, tendo minha desforra.
Vitório suspirou, olhou-me:
- É sua palavra final, Queco?
- É.
Fez-se um silêncio tenso, pesado. Júlia, absolutamente transtornada, nem me olhava.
- Bem – disse Vitório -, neste caso temos de mudar os planos. Em primeiro lugar: vamos continuar com o projeto de entrar no julgamento lá em Santo Inácio. Precisamos do dinheiro para a escola. Só que devemos participar de forma diferente. Proponho que o Queco vá no nosso lugar e que defenda sua idéia, isto é, a idéia de que Capitu traiu o Bentinho. Se a carta é verdadeira como você diz, Queco, trata-se de uma prova imbatível. Para mim você já ganhou, e quero até lhe dar antecipadamente os parabéns.
Sorriu, forçado:
- Acho que a agente não imaginava que as coisas iam acontecer assim, né, pessoal? Mas o que importa é o Colégio Zé Fernandes, e o colégio sairá vitorioso desta. Portanto, teremos um final feliz.
Depois das aulas fui para casa. E vocês devem achar que eu ia triunfante, o rei na barriga.
Não. Triunfante, não. Rei na barriga, também não. De repente as coisas tinham mudado. De repente eu me dava conta do enorme fosso que se abria entre nós, um fosso cavado por mim. E aquilo já não me alegrava, já não me dava satisfação. Eu me sentia o ultimo dos mortais, um cara repugnante, nojento. Tão desgostoso estava comigo próprio que não pude sequer almoçar. Tranquei-me no quarto, atirei-me na cama e chorei, chorei, até adormecer.
Dormi e sonhei. Em meu sonho eu via um homem vestido à moda antiga. Eu não o conhecia, não sabia seu nome, mas tinha certeza que ele era o Bentinho. Que me olhava sem dizer nada, o que me deixou indignado: “eu aqui me sacrificando por você, mentindo, falsificando, e você nem sequer me agradecer?”. Ele se limitou a sacudir a cabeça e desapareceu.
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