Inesperada repercussão.
Teoricamente, a inscrição para o julgamento simulado deveria ser sigilosa. Mas só teoricamente; Santo Inácio e Itaguaí são duas cidades relativamente pequenas, onde todo mundo comenta a vida de todo mundo. Assim, quando se encerraram as inscrições, logo ficamos sabendo que, depois de uma triagem inicial feita pelo próprio júri, haviam sido selecionados para a disputa final três candidatos. Um deles, o Ernesto Gonçalves, era conhecido em Santo Inácio como “gênio”; tinha uma cultura imensa, sabia escrever, sabia falar bem e contava com o apoio de um grupo forte, nada menos que doze colegas de sua escola, o Colégio Santo Inácio. O outro, Romão Osvaldo, o Fuinha, era tão conhecido pela inteligência como ela esperteza e pelo mau caráter. Não por acaso, inscrevera-se sozinho.
- Este cara vai aprontar – resmungou Vitório. – Não sei o quê, mas ele vai aprontar.
Se eu já estava preocupado, não perdia por esperar: para mim, desagradáveis surpresas estariam reservadas.
Dois dias antes de começar o julgamento recebi um telefonema. Era o Josué, repórter do diário itaguaiensse, e que eu conhecia de vista. Queria falar comigo com urgência:
- Esta correndo um boato a seu respeito por aí.
- Que boato? – eu, surpreso e alarmado.
- Dizem que você tem uma carta na manga.
Gelei. Até jornalista já sabia da história. Fiz-me de desentendido, disse que não sabia do que se tratava; ele riu, matreiro, mas explicou:
- Falam que você tem um trunfo secreto. Que vai apresentar um documento capaz de mudar tudo que se sabe a respeito desse livro do Machado de Assis. Pois eu quero entrevistar você sobre este assunto, e quero exclusividade. Afinal, somos o principal jornal de Itaguaí, de sua terra. Estamos torcendo por você. Mas é toma-lá-dá-cá: você nos dá essa informação em primeira mão, nós apoiamos você no julgamento. Que tal essa?
Eu agora estava francamente alarmado. Em primeiro lugar pelo fato de a informação ter vazado, o que não poderia ter acontecido; em segundo lugar, pela possibilidade de o documento aparecer em jornal, o que seria um desastre: os organizadores do concurso certamente me eliminariam de imediato. Expliquei ao Josué que me comprometera a manter sigilo, o que ele, ainda relutante, acabou aceitando em troca de uma promessa: logo depois do julgamento eu lhe daria a tal entrevista exclusiva. E insistiu:
- Veja lá, heim? Até esse dia você não pode falar com ninguém da mídia.
Advertência tinha razão de ser: já naquele mesmo dia fui procurado por jornalistas de duas rádios e de uma tevê, esta do Rio. O que deixou meu pai intrigado:
- Por que, raios, tem tanto jornalista ligando? Em que confusão você se meteu, Queco?
Acabei contando a história do documento. Como Jaime e como Vitório, ele imediatamente ficou desconfiado. Fez várias perguntas a respeito, ouviu minha explicação com um ar suspeitoso:
- Vê lá o que você está fazendo, Queco. Esse tipo de coisa não é brincadeira, muita gente vai se interessar pelo assunto. E investigar o assunto. Por favor, não se meta em confusões...
Àquela altura eu já estava meio arrependido. Jaime e papai tinham razão: a chance de complicações era grande. Mas, cada vez que lembrava o olhar que Júlia trocara com o Vitório, a raiva me invadia: eu precisava, sim, ganhar aquele julgamento, precisava esfregar o dinheiro do premio na cara dela. Seria a minha vingança. Decidi que daí por diante não falaria com mais ninguém sobre a suposta carta, mas que levaria a coisa até o fim.
***
Naquela mesma noite o telefone tocou mais uma vez, na hora do jantar. Mamãe atendeu: é pra você, disse, num obvio tom de censura; também ela estava farta de tantas ligações. Atendi a já fui dizendo:
- Desculpe ser brusco, meu amigo, mas se é sobre a carta do Machado, e se você quer...
- É sobre a carta do Machado, Francesco – respondeu uma voz grave, num tom intrigante, meio irônico, meio ameaçador. – Sobre essa tal de carta do Machado. E, se eu fosse você, não desligaria. Ouviria até o fim o que eu tenho pra lhe dizer. Pode lhe poupar um grande aborrecimento.
Aquilo não era brincadeira. Respirei fundo:
- Desculpe. Fale, estou ouvindo.
- Você não me conhece – prosseguiu o homem – e, de momento, meu nome não vem ao caso. Só vou lhe dizer minha profissão: sou grafologista, perito em escrita manual. Você do que estou falando?
Eu tinha uma vaga noção do que se tratava, de modo que ele explicou:
- Comparando dois textos manuscritos, posso dizer, pela caligrafia, se são de uma mesma pessoa ou não. Isto certamente lhe interessa, não é?
Interessava-me. Infelizmente, agora aquela coisa me interessava, e muito. O homem prosseguiu:
- Fui procurado por um adversário seu nesse julgamento. O nome, obviamente, não vou lhe dizer, mas ele sabe que você vai apresentar como prova uma carta que teria sido escrita pelo próprio Machado de Assis. Se a carta é falsa, amigo Francesco, eu não terei a menor dificuldade em prová-lo: é só comparar a caligrafia, coisa que sei fazer como ninguém. O problema é que seu adversário quer me pagar muito pouco para fazer isto. Então eu pensei em fazer a você uma proposta, que outros chamariam de indecorosa, mas que, considerando aminha difícil situação financeira, estou disposto a levar à diante. Posso, se você topar, atestar por escrito que a carta é verdadeira. Mas, para isso, quero metade do valor do prêmio.
Eu simplesmente não sabia o que dizer. Ele voltou à carga:
- Alô! Está aí, amigo Francesco? Está? Ah, bom, eu pensei até que a ligação tinha caído. Então, o que me diz desta proposta?
O que dizer? Eu não sabia, tão embaralhados estavam meus pensamentos. Ele deu-se conta disso:
- Bem, você não precisa resolver agora. Dou-lhe vinte e quatro horas para pensar. Amanhã, a essa hora, estarei esperando sua ligação. Mesmo porque o julgamento está se aproximando, certo? Pense bem na proposta que lhe fiz.
Deu-me um numero de telefone e desligou. Desliguei também, ainda aturdido. A sensação que se apossava de mim agora era a de que eu estava num pântano, num terreno de areia movediça, e que cada vez afundava mais.
O que fazer?
Pra começar, eu nem sabia se o homem era mesmo um perito em escrita manual, como dizia. Talvez sim, talvez não. Bem poderia ser um vigarista; alguém que, de alguma maneira, descobrira o segredo da carta e agora queria tirar proveito da situação. Mas, e se fosse mesmo um perito? Quem teria entrado em contato com ele? Só poderia ser o Fuinha, concluí. Mas mesmo para um mau caráter como o Fuinha, aquele seria um jeito muito drástico de eliminar um adversário.
Ou seja: dúvidas e mais dúvidas. De qualquer modo tratava-se de uma situação potencialmente perigosa, e eu não sabia o que fazer. Por fim, decidi ignorar o telefonema, mesmo que isso representasse um risco. Afinal, riscos eu já estava correndo, e vários. Um a mais não faria diferença. Eu não ligaria de volta. Até joguei o papel com o numero do telefone no vaso sanitário e dei descarga. Mas isso não resolvia meus problemas, que pareciam crescer a cada minuto. E, pior, eu não tinha a quem pedir auxílio. Para fazê-lo teria de confessar minha desonestidade; seria desmoralização total, um vexame grande demais. O jeito, por tanto, era agüentar tudo sozinho.
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