O julgamento.
Chegou o dia. “É hoje”, dizia a manchete do noticia que o Diário Itaguaiensse Trazia com certo destaque. Nela, os leitores eram informados de que “o jovem Francesco Formos de Azevedo representara a nossa cidade numa das disputas culturais mais interessantes dos últimos tempos”.
Com era sábado, papai e mamãe não trabalhavam. Resolveram me acompanhar, apesar de meus pedidos para que eles não fossem. Obviamente, eu estava com maus pressentimentos. Mas eles disseram que queriam estar a meu lado:
- Os pais são para isso – disse papai. – Para estar com os filhos nos momentos difíceis e nos momentos de glória. No seu caso, com toda a certeza o momento difícil vai dar lugar ao momento de glória. E, quando isso acontecer, estaremos lá pra aplaudir.
- Você sabe que eu não estou de acordo com sua posição – acrescentou mamãe -, mas filho é filho. E, a Capitu que me perdoe, também estarei torcendo por você.
Não só meus pais me acompanhariam. Os colegas de escola tinham alugado um ônibus que levaria uns quarenta deles. No mesmo ônibus iriam Jaime e Sandra; aliás, era a primeira que Jaime estava saindo de casa após o acidente.
Fomos, por tanto. Eu me sentia como a vítima que esta sendo entregue ao carrasco. Momento de glória, como dissera papai? Não era o que eu antecipava.
O julgamento seria realizado no cine-teatro Astor, um velho cinema no centro de Santo Inácio, o que, entre parênteses, pareceu-me um lugar mais do que apropriado. Afinal, o cinema é um lugar de dramas, de comédias. E era isto justamente o que viveríamos naquela tarde, um drama, uma comédia, ou as duas coisas.
Quando chegamos ao local, já havia uma fila enorme de gente esperando para entrar. Fomos recebidos pela Valéria, relações publicas da empresa promotora do evento. Uma moça muito simpática: estaria à minha disposição para ajudar em tudo. Levou-me para uma espécie de camarim, onde eu deveria aguardar até a hora de inicio; Um lugar confortável, com poltronas, material para escrever e uma mesa com biscoitos e suco de laranja. Explicou-me como seria o julgamento:
- No papel de juiz, como você sabe, teremos um advogado muito conhecido aqui em Santo Inácio, o doutor Jesuíno Fontes, que aliás já leu Dom Casmurro seis vezes. Segundo ele próprio me disse. O júri, com doze pessoas, também já está apostos. Colocamos urnas na sala para que o público possa votar também... Os jurados vão levar em conta esses votos na decisão final. Enfim, está tudo pronto.
Sorriu:
- Agora só depende de vocês.
Naquele momento entravam no camarim meus dois adversários. Ernesto Gonçalves, o Gênio, era um garoto baixinho, magrinho, com óculos de grossas lentes; vinha acompanhado por membro de sua equipe, dois rapazes e uma menina, todos radiantes e aparentemente certos da vitória. Quanto ao Fuinha, fazia jus ao apelido; tinha uma cara de fuinha, mesmo, de bicho desagradável. O Gênio me cumprimentou efusivamente, mas o olhar que o Fuinha me lançou não antecipava nada de bom.
Entrou o juiz, o doutor Jesuíno Fontes. Era um homem já de idade, cabeleira e barba brancas, de baixa estatura, mas porte majestoso. Saudou-nos afavelmente e passou a explicar as regras do julgamento: cada um de nós teria trinta minutos para apresentar nossos argumentos a favor ou contra a suposta traição de Capitu. Depois haveria um período em que responderíamos a perguntas e debateríamos entre nós. Finalmente o júri e as pessoas presentes no “tribunal” votariam, e ele, o juiz, daria o veredito.
Valéria veio dizer que o público estava impaciente: já eram duas e meia, e o inicio havia sido marcado para as duas. Fomos para o palco. A platéia, entusiasmada, nos recebeu com palmas, gritos, assobios. O doutor Fontes tomou assento à mesa principal, nós três ficamos numa mesa ao lado. Os jurados, doze, estavam sentados em cadeiras numa lateral do palco.
O doutor Fontes abriu os trabalhos. Primeiro fez um resumo de Dom Casmurro e falou sobre a polêmica que o livro sempre suscitara; a seguir disse que, graças ao patrocínio da fabrica de sabonetes, teríamos ali em Santo Inácio um julgamento original em que “três talentosos jovens” (palavras dele) defenderiam seus pontos de vista. Pediu ao público que prestasse atenção e que participasse votando.
Enquanto ele falava, eu olhava para a platéia. O cinema estava cheio, com gente em pé, inclusive. Havia vários fotógrafos, e também uma equipe de tevê, o que me deu um frio na barriga: eu tinha certeza de que estavam ali por causa da carta. Que eu trouxera numa pasta de cartolina, junto com o texto da acusação a Capitu. A pasta, aliás, estava úmida: eu suava abundantemente.
Na platéia, rostos conhecidos: meus pais, o professor Jaime, a professora Sandra, Vitório, Nanda; mas Júlia eu não estava enxergando. O que só fazia aumentar minha ansiedade. Teria ela se recusado a vir? E o que significaria essa recusa? Seria o rompimento definitivo? A possibilidade me angustiava, mas acabou me dando raiva: “se ela quer terminar”, pensei, “que termine de uma vez, que fique com seu amado Vitório, não preciso mais dela”.
Não. Não era verdade. Eu não precisava mais da Ju? Precisava, sim. Precisava desesperadamente. Eu a amava, e aquela ausência chegava a me provocar uma dor física. Tentei tranqüilizar-me; quem sabe tinha acontecido alguma coisa, quem sabe ela adoecera, era muito sujeita a dores de cabeça...
De repente vi, sentado na primeira fila, um homem de óculos escuros e cara impassível, que parecia me mirara atentamente. Por alguma razão aquela figura estranha me deixou inquieto. O correu-me que poderia ser o tal do perito, pronto para se vingar de mim. Eu já estava imaginando aquele homem se levantando e dizendo: “Meritíssimo Juiz, desejo contestar a prova que esta sendo apresentada pelo senhor Francesco Formoso de Azevedo. A suposta carta do Machado de Assis, Meritíssimo, não passa de uma fraude!”. Seria uma vergonha, seria o meu fim... Mas agora era tarde para tomar qualquer providência. O jeito era vencer o medo e ir em frente.
Começaram as apresentações.
O primeiro foi o Gênio.
Fazendo jus ao apelido, mostrou-se brilhante. Os argumentos que listou para provar que Capitu não traíra Bentinho eram os clássicos, aqueles mesmos que tinham surgido na conversa que havíamos tido no salão paroquial, Vitório, Júlia, Nanda e eu. Mas ele os apresentou de forma lógica, numa linguagem refinada; mais, era um orador nato (pelo que sei, hoje é um advogado bem-sucedido). A todo instante era interrompido por aplausos, apesar das advertências do juiz, que chamava atenção do público para a limitação de tempo. Não podia haver dúvida: era o candidato preferencial do pessoal de Santo Inácio.
E aí veio o Fuinha.
Era uma apresentação que eu esperava com muito receio. “o que será que este cara está aprontando?”, eu me perguntava. Mas, para minha surpresa, Fuinha não tinha nenhum truque preparado. Defendeu a idéia de Capitu traíra, sim. Seus argumentos eram bons – afinal, por alguma razão havia sido selecionado -, mas a apresentação não passou do convencional. Ao contrário do Gênio, não era bom orador. Tinha uma voz fanhosa, monótona, falava sem qualquer convicção. Quando terminou, recebeu alguns aplausos e sentou-se, sorrindo sempre.
Aquele sorriso me deixou com a pulga atrás da orelha.
Será que o cara não estava aprontando alguma? E será que não teria algo a ver com a minha própria apresentação, com a carta que eu iria mostrar? Eu olhava o homem de óculos escuros na primeira fila. Se ele fosse o perito, como eu imaginava, e se tivesse se acertado com o fuinha, eu estava bem arranjado. Já podia vê-lo pedindo licença ao juiz ara chamar ao palco alguém capaz de avaliar a autenticidade da prova que eu apresentava. E aí o homem rapidamente viria (não por acaso estava sentado na primeira fila), olharia a carta e proclamaria para o público: “A suposta prova que o senhor Francesco nos traz, Meritíssimo não passa de uma fraude!”. Um golpe espetacular, que poderia inclusive valer ao fuinha muitos votos do júri e do público, e quem sabe até a vitória no julgamento.
Tudo aquilo podia ser fantasia minha, claro. Mas a verdade é que eu ia, mesmo, cometer uma fraude, e agora tinha plena consciência disso. Deus, a que ponto eu tinha sido levado pelo ciúme! Em matéria de ciumeira, eu era muito pior que o Bentinho, e agora me dava conta do tremendo problema que criara para mim mesmo. O meu pânico era tanto que chegava ame sentir mal, tonto, prestes a desmaiar.
O juiz me chamou:
- O senhor Francesco Formoso de Azevedo, por favor.
Lembrou-me de novo o tempo de que eu dispunha, fez um gracejo com o nome Formoso e pediu que eu tomasse o meu lugar na tribuna. E ali estava eu, diante do microfone, a pasta de cartolina nas mãos geladas, úmidas de suor. Diante de mim a imensa platéia, em silêncio, na maior expectativa. “A sorte está lançada”, pensei. Eu iniciara mentindo, terminaria mentindo. Só esperava que meu desespero, minha angustia, minha amargura, dessem impressão de sinceridade, de veracidade. Mentindo? Sim. Eu estaria mentindo. Mas meu sofrimento era autêntico, verdadeiro.
Segundo meus planos, eu deveria começar com uma frase de efeito: “Capitu traiu”. Faria uma pausa, listaria meus argumentos. Nova pausa e eu diria: “Mas há um argumento ainda mais forte que esses, senhores e senhoras. Há uma voz mais convincente do que aminha, senhores e senhoras. É uma voz que vem ecoando desde de um passado longínquo, a voz que traz consigo a autoridade do grande mestre, do autor de Dom Casmurro. A voz de ninguém menos do que Machado de Assis!”. Mais uma pausa, a última, e eu concluiria com voz tronitoante, brandindo a folha de papel: “Sim, senhoras e senhores, é o próprio Machado que nos diz, nesta carta até hoje inédita que Capitu traiu!”. E aí, sempre segundo minha expectativa, palmas, e aplausos, e gritos, e assobios, e os flashes brilhando, e as luzes das câmeras...
Respirei fundo.
E então avistei-a.
Júlia.
Vinha caminhando pelo corredor do cinema, em passos firmes, em minha direção. Olhava-me tranqüila, serena, amorosa. Sim: amorosa. Deus, Júlia nunca me olhara assim, nunca; era como se tivesse guardado todo o seu sentimento para mostrá-lo naquele instante decisivo. Eu agora tinha tanta certeza do seu amor, como tinha certeza de estar vivo.
Júlia veio vindo. Cegou a uns cinco metros do palco, sentou-se no chão e ali ficou a me olhar.
As lágrimas me corriam pelo rosto, em meio ao silêncio tumular que baixara sobre o cinema.
Enxuguei os olhos, abri a pasta de cartolina.
Fechei a pasta de cartolina.
Não, eu não usaria aquilo. Mostrei a pasta ao público.
- Senhoras e senhores, esta pasta contém a acusação que eu faria a Capitolina Pádua, conhecida como Capitu. Eu a acusaria de ter traído seu marido Bento de Albuquerque Santiago, o Bentinho. E eu faria isto, senhoras e senhores, listando argumentos que são de todos conhecidos e que foram agora a pouco expostos por meu adversário Ramão Oswaldo. Argumentos estes previamente refutados, e com brilhantismo, por Ernesto Gonçalves. Até aí estaríamos em terreno conhecido. Mas então, senhor juiz, mas então, senhores jurados, mas então, meus senhores e senhoras, eu, como se costuma dizer, tiraria da manga a carta oculta. Então eu recorreria a meu secreto trunfo. Eu mostraria a vocês uma carta de Machado de Assis, esta carta.
Abria a pasta de cartolina, tirei dali a carta, mostrei-a ao público.
- essa carta, senhores e senhoras, diz que, para o autor do livro, Capitu traiu, sim, Bentinho. E esta carta traz a assinatura do próprio autor do livro, de Machado de Assis.
Interrompi-me; aquilo era demais para mim, uma sobrecarga que eu não podia agüentar. Mas, fazendo um enorme esforço, continuei:
- Só que esta carta infelizmente é falsa. Essa carta foi escrita por mim. Deu trabalho: tive de estudar a caligrafia de Machado de Assis, tive de arranjar papel, tinta e caneta daquela época... Fiz força e o resultado não foi ruim. Mas a carta é uma fraude, minha gente. E eu não vou apresentá-la. Prefiro admitir meu erro. Prefiro ser derrotado.
Júlia olhava-me, as lagrimas correndo por seu rosto. Voz embargada pela emoção, prossegui:
- Decidi não levar adiante a farsa. E sabem por que decidi isso? Porque aqui, neste salão, há uma garota que eu amo e que, agora eu estou seguro disso, me ama também. Uma garota que me prefere derrotado a mentiroso. Para nós, do Colégio Zé Fernandes, seria muito importante vencer; precisamos do dinheiro para construir nossa escola que, como vocês sabem, foi quase destruída por uma avalanche. Mas ganhar o dinheiro assim não dá, gente. Simplesmente não dá. Dinheiro também tem preço, e eu não posso pagar o preço que este dinheiro custa; não posso mentir. Eu não sei o que se passou entre Capitu e Escobar. O que eu sei, com certeza, é que Bentinho foi vitima dessa doença – porque, gente, é uma doença – chamada ciúme. O ciúme, como um monstro de mil tentáculos, aprisionou Bentinho, estragou a vida dele e prejudicou todas as pessoas a seu redor.
Detive-me ofegante, mas agora já não tinha mais dificuldade de falar. Agora as palavras brotavam de dentro de mim, livres, soltas. Olhei a platéia: estava verdadeiramente arrebatada. Papai e mamãe olhavam-me, evidentemente orgulhosos do filho que tinham criado. Orgulhosos estavam também os meus professores, Jaime e Sandra. O Jaime chegou a me acenar fazendo o “V” da vitória. Meus colegas estavam prontos para saltar da cadeira e me aplaudir. E até o pessoal que não torcia por nós, o pessoal do Santo Inácio, parecia impressionado. Respirei fundo e continuei.
- Ciúme é doença, gente. Ciúme, para as pessoas é um desastre, como aquele desastre que atingiu a nossa escola. Só que, no caso do ciúme, o desastre é o resultado de fantasias, de conflitos. Vocês vão me perguntar: e como é que você sabe? Você não é o Machado de Assis. Não, não sou o Machado. Aprendi muito com o livro dele, mas não sou o Machado. Ele me ajudou a ver o que se passava comigo mesmo. Porque, como o Bentinho, vivi o ciúme de maneira intensa. O ciúme bagunça a nossa cabeça, faz com que a gente veja coisas que não existem. Eu cheguei a suspeitar daminha namorada, da garota que eu amo. Cheguei a brigar com ela, fiz um papelão, inventei esta história toda, esta mentira da carta do Machado. Mas agora, na frente dela e na frente de vocês todos, eu peço perdão a ela, como peço perdão a vocês todos, meus amigos de Santo Inácio e de Itaguaí. Ju, quero dizer a você: eu te amo! Eu te amo, Ju querida!
Sai de trás da tribuna, saltei do palco, metro e tanto de altura, e corri para abraçá-la, enquanto o público simplesmente delirava. E ali ficamos abraçados, completamente desligados do que se passava a nosso redor. Minha mãe soluçava, meu ai e Vitório sorriam...
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