Resultado surpreendente.
Chegava o momento da decisão.
Nós todos agora sentados, o doutor Jesuíno pegou o microfone. Começou dizendo que o julgamento tomara um rumo completamente inesperado, “por tudo aquilo que vocês viram”:
- Teoricamente, deveríamos comparar argumentos e eventuais provas. Um dos concorrentes, contudo, fez diferente: ele deu seu testemunho pessoal. Ele mostrou como havia se identificado com o personagem Bentinho. Ou seja, as regras não foram exatamente seguidas. Por causa disso, e em comum acordo com nossos jurados, proponho que transformemos este julgamento num debate, seguido de uma votação final. Coloco, por tanto, a palavra a disposição de quem dela queira fazer uso.
Fuinha deu um passo à frente:
- Eu quero falar.
E falou mesmo. Em contraste com sua medíocre apresentação, agora mostrava-se bem articulado:
- Meu adversário, Francesco Formoso de Azevedo foi muito sincero, mas, convenhamos, não foi convincente. A mim, pelo menos, ele não convenceu. Mais do que isto, e como disse o senhor juiz, não seguiu exatamente as regras. Por ultimo, e como ele próprio confessou, preparou uma prova falsa com a qual pretendia nos enganar. Não chegou a esse extremo, mas a intenção existiu. Por causa disso, acho que só dois candidatos devem ser avaliados, eu próprio e meu colega Ernesto Gonçalves. Por tanto, proponho que o candidato Francesco Formoso de Azevedo seja eliminado da competição.
Uma enorme agitação apossou-se do público; meus colegas, por exemplo, protestavam indignados. E aí o Gênio pediu a palavra. Fez-se então silêncio, silêncio completo, absoluto:
- Naturalmente – começou ele -, inscrevi-me para ganhar esta competição e preparei-me para isto. Durante meses li e discuti com meus colegas o romance de Machado de Assis, em busca de conclusões e de provas que apoiassem essas conclusões. Modéstia à parte, acho que fiz um bom trabalho e, quando aqui cheguei, tinha a convicção de que venceria a disputa. Mas agora mudei de idéia. E mudei de idéia por causa da apresentação do Francesco Formoso de Azevedo. Ele não disse o que achava do livro, ele descreveu os sentimentos e as emoções que Dom Casmurro provocou nele. E, meus amigos, acho que assim correspondeu ao sonho de todo escritor que quer, antes de mais nada, mobilizar seus leitores, fazer com que vivam intensamente a história que está sendo narrada. Francesco Formoso de Azevedo dirigiu-se a nós como se estivesse falando de dentro do romance, como se a trama do livro e sua própria vida fossem uma coisa só. A franqueza dele foi impressionante e mostra como se identificou com o autor. Por causa disso eu renuncio a competição em favor de meu colega Francesco.
Um aplauso ensurdecedor tomou o local. O juiz a custo tentava acalmar o público. Por fim, conseguiu fazer-se ouvir.
- Meus amigos, já ouvimos argumentos de parte a parte. Agora temos de decidir. Como eu disse antes, vamos atribuir tal decisão ao público que aqui está: achamos, os senhores jurados e eu, que esta será uma forma mais democrática. Sei que existem urnas à disposição, mas como na pratica só temos dois candidatos, acho que podemos fazer a escolha pelo simples método de levantar os braços. Levantem, pois, as mãos aqueles que votam no senhor Francesco Formoso de Azevedo.
Uma verdadeira floresta de braços ergueu-se. Braços masculinos e braços femininos, braços jovens e braços maduros, braços brancos, negros, morenos. Não havia dúvida. O juiz pôs-se de pé:
- Proclamo vencedor...
Uma pausa dramática...
-... o senhor Francesco Formoso de Azevedo!
O cinema quase veio abaixo com os aplausos. Júlia e eu fomos carregados em triunfo porta afora. De Santo Inácio fomos para Itaguaí, rumo ao salão paroquial. Ali uma festança foi improvisada e estendeu-se até meia-noite.
Já na semana seguinte a escola começou a ser reconstruída. O estrago havia sido tão grande que o dinheiro foi justamente a conta, mas conseguimos terminar a obra e em um mês a escola estava funcionando de novo. Jaime agora nos falava sobre Machado de Assis numa sala bonita, bem iluminada; na parede do fundo, emoldurada, a carta que me proclamara vencedor do concurso realizado em Santo Inácio.
***
Como eu disse, doze anos se passaram, mas continuamos amigos, todos os quatro da velha turma. Estamos formados; Vitório é jornalista, Nanda é psicóloga, eu sou engenheiro, Ju é socióloga. Nós dois estamos casados, e temos um filho, Ezequiel, que está com seis meses é um lindo garoto. Vitório e Nanda saem com a gente; mas, apesar de nossos esforços, não decidiram ainda “juntar os trapinhos”, para usar uma expressão antiga ainda comum em Itaguaí. Quando nos reunimos, e não há semana em que a gente não se reúna, invariavelmente falamos dos livros que estamos lendo, dos livros que já lemos um dia – livros que, garanto a vocês, fizeram nossa cabeça. A gente aprendeu muita coisa com obras como Dom Casmurro, muita coisa que vem nos ajudando pela vida afora. E, muito importante, aprendemos com prazer e emoção.
Como dizia o professor Jaime: livro bom é aquele que emociona, que ensina através da emoção e do prazer.
Livro bom é aquele que se confunde com a nossa própria vida.
Acho que Machado assinaria embaixo dessa frase. Sem que ninguém precisasse imitar a assinatura dele.
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