23 de set. de 2011

Leitura diária - Postagem 4/37

CAPÍTULO XIII



Capitu

De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé:

– Capitu!

E no quintal:

– Mamãe!

E outra vez na casa:

– Vem cá!

Não me pude ter. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a

chácara, e caminharam para o quintal vizinho. Era costume delas, às tardes, e às manhãs

também. Que as pernas também são pessoas, apenas inferiores aos braços, e valem de si

mesmas, quando a cabeça não as rege por meio de idéias. As minhas chegaram ao pé do

muro. Havia ali uma porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe, quando

Capitu e eu éramos pequenos. A porta não tinha chave nem taramela; abria-se

empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra

pendente de uma corda. Era quase que exclusivamente nossa. Em crianças, fazíamos

visita batendo de um lado e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. Quando as

bonecas de Capitu adoeciam, o médico era eu. Entrava no quintal dela com um pau

debaixo do braço, para imitar o bengalão do Dr. João da Costa; tomava o pulso à

doente, e pedia-lhe que mostrasse a língua. “É surda, coitada!”, exclamava Capitu.

Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabava mandando aplicar-lhe umas

sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico.

– Capitu.

– Mamãe!

– Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.

A voz da mãe era agora mais perto, como se viesse já da porta dos fundos. Quis

passar ao quintal, mas as pernas, há pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao

chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta, entrei. Capitu estava ao pé do muro

fronteiro, voltada para ele, riscando com um prego. O rumor da porta fê-la olhar para

trás; ao dar comigo, encostou-se ao muro, como se quisesse esconder alguma coisa.

Caminhei para ela; naturalmente levava o gesto mudado, porque ela veio a mim, e

perguntou-me inquieta:

– Que é que você tem?

– Eu? Nada.

– Nada, não; você tem alguma coisa.

Quis insistir que nada, mas não achei língua. Todo eu era olhos e coração, um

coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos

daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita,

meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à

outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz

reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns

ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem águas de

toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapatos

de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.

– Que é que você tem? repetiu.

– Não é nada, balbuciei finalmente.

E emendei logo:

– É uma notícia.

– Notícia de quê?

Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que

lhe faria. Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava.

Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido; senti que não poderia falar claramente, tinha

agora a vista não sei como...

– Então?

– Você sabe...

Nisto olhei para o muro, o lugar em que ela estivera riscando, escrevendo ou

esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ela

fizera para cobri-los. Então quis vê-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me,

mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu

adiante e apagou o escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.



CAPÍTULO XIV

A Inscrição

Tudo o que contei no fim do outro capítulo foi obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda

mais rápido. Dei um pulo, e antes que ela raspasse o muro, li estes dois nomes, abertos ao prego, e assim

dispostos:

BENTO

CAPITOLINA

Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e

ficamos a olhar um para o outro... Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três

páginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós.

Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegandose,

apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la

marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com

os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o

estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar;

tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.

Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas.

Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se

uns pelos outros... Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma

das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o cálix, os lábios a pátena.

Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende, e é a língua católica dos

homens. Não me tenhas por sacrílego, leitora minha devota; a limpeza da intenção lava

o que puder haver menos curial no estilo. Estávamos ali com o céu em nós. As mãos,

unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os

olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair,

tornavam ao coração caladas como vinham...



CAPÍTULO XV

Outra Voz Repentina

Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de homem:

– Vocês estão jogando o siso?

Era o pai de Capitu, que estava à porta dos fundos, ao pé da mulher. Soltamos as

mãos depressa, e ficamos atrapalhados. Capitu foi ao muro, e, com o prego, disfarçadamente,

apagou os nossos nomes escritos.

– Capitu!

– Papai!

– Não me estragues o reboco do muro.

Capitu riscava sobre o riscado, para apagar bem o escrito. Pádua saiu ao quintal,

a ver o que era, mas já a filha tinha começado outra coisa, um perfil, que disse ser o

retrato dele, e tanto podia ser dele como da mãe; fê-lo rir, era o essencial. De resto, ele

chegou sem cólera, todo meigo, apesar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em

que nos apanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos, costas

abauladas, donde lhe veio a alcunha de Tartaruga, que José Dias lhe pôs. Ninguém lhe

chamava assim lá em casa; era só o agregado.

– Vocês estavam jogando o siso? perguntou.

Olhei para um pé de sabugueiro que ficava perto; Capitu respondeu por ambos.

– Estávamos, sim, senhor; mas Bentinho ri logo, não agüenta.

– Quando eu cheguei à porta, não ria.

– Já tinha rido das outras vezes; não pode. Papai quer ver?

E séria, fitou em mim os olhos, convidando-me ao jogo. O susto é naturalmente

sério; eu estava ainda sob a ação do que trouxe a entrada de Pádua, e não fui capaz de

rir, por mais que devesse fazê-lo, para legitimar a resposta de Capitu. Esta, cansada de

esperar, desviou o rosto, dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. E

nem assim ri. Há coisas que só se aprendem tarde; é mister nascer com elas para fazêlas

cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. Capitu, após duas

voltas, foi ter com a mãe, que continuava à porta da casa, deixando-nos a mim e ao pai

encantados dela; o pai, olhando para ela e para mim, dizia-me, cheio de ternura:

– Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete. Mamãe está

boa? continuou voltando-se inteiramente para mim.

– Está.

– Há muitos dias que não a vejo. Estou com vontade de dar um capote ao doutor,

mas não tenho podido, ando com trabalhos da repartição em casa; escrevo todas as

noites que é um desespero; negócio de relatório. Você já viu o meu gaturamo? Está ali

no fundo. Ia agora mesmo buscar a gaiola; ande ver.

Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente, sem ser preciso jurar pelo céu

nem pela terra. Meu desejo era ir atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos

esperava; mas o pai era o pai, e demais amava particularmente os passarinhos. Tinha-os

de vária espécie, cor e tamanho. A área que havia no centro da casa era cercada de

gaiolas de canários, que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocava

pássaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, no próprio quintal,

armando alçapões. Também, se adoeciam, tratava deles como se fossem gente.



CAPÍTULO XVI

O Administrador Interino

Pádua era empregado em repartição dependente do Ministério da Guerra. Não

ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais, a casa em que

morava, assobradada como a nossa, posto que menor, era propriedade dele. Comprou-a

com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria, dez contos de réis. A

primeira idéia do Pádua, quando lhe saiu o prêmio, foi comprar um cavalo do Cabo, um

adereço de brilhantes para a mulher, uma sepultura perpétua de família, mandar vir da

Europa alguns pássaros, etc.; mas a mulher, esta D. Fortunata que ali está à porta dos

fundos da casa, em pé, falando à filha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça,

os mesmos olhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa, e

guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes. Pádua hesitou muito; afinal

teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem D. Fortunata pediu auxílio. Nem foi

só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida ao Pádua.

Escutai; a anedota é curta.

O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao Norte, em

comissão. Pádua, ou por ordem regulamentar, ou por especial designação, ficou

substituindo o administrador com os respectivos honorários. Esta mudança de fortuna

trouxe-lhe certa vertigem; era antes dos dez contos. Não se contentou de reformar a

roupa e a copa, atirou-se às despesas supérfluas, deu jóias à mulher, nos dias de festa

matava um leitão, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim vinte

e dois meses na suposição de uma eterna interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa,

aflito e desvairado, ia perder o lugar, porque chegara o efetivo naquela manhã. Pediu à

minha mãe que velasse pelas infelizes que deixava; não podia sofrer a desgraça, matavase.

Minha mãe falou-lhe com bondade, mas ele não atendia a coisa nenhuma.

– Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a família,

tornar atrás... Já disse, mato-me! Não hei de confessar à minha gente esta miséria. E os

outros? Que dirão os vizinhos? E os amigos? E o público?

– Que público, Sr. Pádua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre-se que sua

mulher não tem outra pessoa... e que há de fazer? Pois um homem... Seja homem, ande.

Pádua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns dias, mudo,

fechado na alcova, – ou então no quintal, ao pé do poço, como se a idéia da morte

teimasse nele. D. Fortunata ralhava:

– Joãozinho, você é criança?

Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu a pedir à

minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido que se queria matar.

Minha mãe foi achá-lo à beira do poço, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era

aquela de parecer que ia ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e

perder um emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a

mulher e a filha... Pádua obedeceu; confessou que acharia forças para cumprir a vontade

de minha mãe.

– Vontade minha, não; é obrigação sua.

– Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.

Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido à parede, cara no

chão. Não era o mesmo homem que estragava o chapéu em cortejar a vizinhança,

risonho, olhos no ar, antes mesmo da administração interina. Vieram as semanas, a

ferida foi sarando. Pádua começou a interessar-se pelos negócios domésticos, a cuidar

dos passarinhos, a dormir tranqüilo as noites e as tardes, a conversar e dar notícias da

rua. A serenidade regressou; atrás dela veio a alegria, um domingo, na figura de dois

amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já ele ria, já brincava, tinha o ar do costume; a

ferida sarou de todo.

Com o tempo veio um fenômeno interessante. Pádua começou a falar da

administração interina, não somente sem as saudades dos honorários, nem o vexame da

perda, mas até com desvanecimento e orgulho. A administração ficou sendo a héjira,

donde ele contava para diante e para trás.

– No tempo em que eu era administrador...

Ou então:

– Ah! Sim, lembra-me, foi antes da minha administração, um ou dois meses

antes... Ora, espere; a minha administração começou... É isto, mês e meio antes; foi mês

e meio antes, não foi mais.

Ou ainda:

– Justamente; havia já seis meses que eu administrava...

Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. José Dias bradava que era a vaidade

sobrevivente; mas o Padre Cabral, que levava tudo para a Escritura, dizia que com o

vizinho Pádua se dava a lição de Elifás a Jó: “Não desprezes a correção do Senhor: Ele

fere e cura.”

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