26 de set. de 2011

Leitura diária - Postagem 6/37

CAPÍTULO XXI



Prima Justina

Na varanda achei prima Justina, passeando de um lado para outro. Veio ao

patamar e perguntou-me onde estivera.

– Estive aqui ao pé, conversando com D. Fortunata, e distraí-me. É tarde, não é?

Mamãe perguntou por mim?

– Perguntou, mas eu disse que você já tinha vindo.

A mentira espantou-me, não menos que a franqueza da notícia. Não é que prima

Justina fosse de biocos, dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a

Paulo o que pensava de Pedro; mas confessar que mentira é que me pareceu novidade.

Era quadragenária, magra e pálida, boca fina e olhos curiosos. Vivia conosco por favor

de minha mãe, e também por interesse; minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé

de si, e antes parenta que estranha.

Passeamos alguns minutos na varanda, alumiada por um lampião. Quis saber se

eu não esquecera os projetos eclesiásticos de minha mãe, e dizendo-lhe eu que não,

inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha à vida de padre. Respondi esquivo:

– Vida de padre é muito bonita.

– Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre, explicou

rindo.

– Eu gosto do que mamãe quiser.

– Prima Glória deseja muito que você se ordene, mas ainda que não desejasse,

há cá em casa quem lhe meta isso na cabeça.

– Quem é?

– Ora, quem! Quem é que há de ser? Primo Cosme não é, que não se importa

com isso; eu também não.

– José Dias? concluí.

– Naturalmente.

Enruguei a testa interrogativamente, como se não soubesse nada. Prima Justina

completou a notícia dizendo que ainda naquela tarde José Dias lembrara a minha mãe a

promessa antiga.

– Prima Glória pode ser que, em passando os dias, vá esquecendo a promessa;

mas como há de esquecer se uma pessoa estiver sempre, nos ouvidos, zás que darás,

falando do seminário? E os discursos que ele faz, os elogios da Igreja, e a vida de padre

é isto e aquilo, tudo com aquelas palavras que só ele conhece, e aquela afetação... Note

que é só para fazer mal, porque ele é tão religioso como este lampião. Pois é verdade,

ainda hoje. Você não se dê por achado... Hoje de tarde falou como você não imagina...

– Mas falou à toa? perguntei, a ver se ela contava a denúncia do meu namoro

com a vizinha.

Não contou; fez apenas um gesto como indicando que havia outra coisa que não

podia dizer. Novamente me recomendou que não me desse por achado, e recapitulou

todo o mal que pensava de José Dias, e não era pouco, um intrigante, um bajulador, um

especulador, e, apesar da casca de polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes,

disse:

– Prima Justina, a senhora era capaz de uma coisa?

– De quê?

– Era capaz de... Suponha que eu não gostasse de ser padre... a senhora podia

pedir a mamãe...

– Isso não, atalhou prontamente; prima Glória tem este negócio firme na cabeça,

e não há nada no mundo que a faça mudar de resolução; só o tempo. Você ainda era

pequenino, já ela contava isto a todas as pessoas da nossa amizade, ou só conhecidas. Lá

avivar-lhe a memória, não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros; mas

também, pedir outra coisa, não peço. Se ela me consultasse, bem; se ela me dissesse:

“Prima Justina, você que acha?”, a minha resposta era: “Prima Glória, eu penso que, se

ele gosta de ser padre, pode ir; mas, se não gosta, o melhor é ficar.” É o que eu diria e

direi se ela me consultar algum dia. Agora, ir falar-lhe sem ser chamada, não faço.



CAPÍTULO XXII

Sensações Alheias

Não alcancei mais nada, e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de

Capitu. Então, como eu quisesse ir para dentro, prima Justina reteve-me alguns minutos, falando do calor

e da próxima festa da Conceição, dos meus velhos oratórios, e finalmente de Capitu. Não disse mal dela;

ao contrário, insinuou-me que podia vir a ser uma moça bonita. Eu, que já a achava lindíssima, bradaria

que era a mais bela criatura do mundo, se o receio me não fizesse discreto. Entretanto, como prima

Justina se metesse a elogiar-lhe os modos, a gravidade, os costumes, o trabalho para os seus, o amor que

tinha a minha mãe, tudo isto me acendeu a ponto de elogiá-la também. Quando não era com palavra, era

com gesto de aprovação que dava a cada uma das asserções da outra, e certamente com a felicidade que

devia iluminar-me a cara. Não adverti que assim confirmava a denúncia de José Dias, ouvida por ela, à

tarde, na sala de visitas, se é que também ela não desconfiava já. Só pensei nisso na cama. Só então senti

que os olhos de prima Justina, quando eu falava, pareciam apalpar-me, ouvir-me, cheirar-me, gostar-me,

fazer o ofício de todos os sentidos. Ciúmes não podiam ser; entre um pirralho da minha idade e uma viúva

quarentona não havia lugar para ciúmes. É certo que, após algum tempo, modificou os elogios a Capitu, e

até lhe fez algumas críticas, disse-me que era um pouco trêfega e olhava por baixo; mas ainda assim, não

creio que fossem ciúmes. Creio antes... sim... sim, creio isto. Creio que prima Justina achou no espetáculo

das sensações alheias uma ressurreição vaga das próprias. Também se goza por influição dos lábios que

narram.



CAPÍTULO XXIII

Prazo Dado

– Preciso falar-lhe amanhã, sem falta; escolha o lugar e diga-me.

Creio que José Dias achou desusado este meu falar. O tom não me saíra tão

imperativo como eu receava, mas as palavras o eram, e o não interrogar, não pedir, não

hesitar, como era próprio da criança e do meu estilo habitual, certamente lhe deu idéia

de uma pessoa nova e de uma nova situação. Foi no corredor, quando íamos para o chá;

José Dias vinha andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a

prima Justina. Lia cantado e compassado. Os castelos e os parques saíam maiores da

boca dele, os lagos tinham mais água e a “abóbada celeste” contava alguns milhares

mais de estrelas centelhantes. Nos diálogos, alternava o som das vozes, que eram

levemente grossas ou finas, conforme o sexo dos interlocutores, e reproduziam com

moderação a ternura e a cólera.

Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me ele:

– Amanhã, na rua. Tenho umas compras que fazer, você pode ir comigo, pedirei

a mamãe. É dia de lição?

– A lição foi hoje.

– Perfeitamente. Não lhe pergunto o que é; afirmo desde já que é matéria grave e

pura.

– Sim, senhor.

– Até amanhã.

Fez-se tudo o melhor possível. Houve só uma alteração: minha mãe achou o dia

quente e não consentiu que eu fosse a pé; entramos no ônibus, à porta de casa.

Não importa, disse-me José Dias; podemos apear-nos à porta do Passeio Público.



CAPÍTULO XXIV

De Mãe e de Servo

José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira coisa que conseguiu

logo que comecei a andar fora foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo à rua. Cuidava dos

meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha prosódia. Aos

oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata, ele a corrigia, meio sério para dar

autoridade à lição, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras

letras. Mais tarde, quando o Padre Cabral me ensinava latim, doutrina e história sagrada, ele assistia às

lições, fazia reflexões eclesiásticas, e, no fim, perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem

amigo caminha depressa?” Chamava-me “um prodígio”; dizia a minha mãe ter conhecido outrora

meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha idade,

possuía já certo número de qualidades morais sólidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro

elogio, gostava do elogio; era um elogio.

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