27 de set. de 2011

Leitura diária - Postagem 7/37

CAPÍTULO XXV



No Passeio Público

Entramos no Passeio Público. Algumas caras velhas, outras doentes ou só vadias

espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. Seguimos

para o terraço. Andando, para me dar ânimo, falei do jardim:

– Há muito tempo que não venho aqui, talvez um ano.

– Perdoe-me, atalhou ele, não há três meses que esteve aqui com o nosso vizinho

Pádua; não se lembra?

– É verdade, mas foi tão de passagem...

– Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo, e ela, que é boa como a

mãe de Deus, consentiu; mas ouça-me, já que falamos nisto, não é bonito que você ande

com o Pádua na rua.

– Mas eu andei algumas vezes...

– Quando era mais jovem; era criança, era natural, ele podia passar por criado.

Mas você está ficando moço, e ele tomando confiança. D. Glória, afinal, não pode

gostar disto. A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo

lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.

Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! a adulação!

D. Fortunata merece estima, e ele não nego que seja honesto, tem um bom emprego,

possui a casa em que mora, mas honestidade e estima não bastam, e as outras qualidades

perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda. Pádua tem uma

tendência para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. Não digo isto

por ódio, nem porque ele fale mal de mim e se ria, como se riu, há dias, dos meus

sapatos acalcanhados...

– Perdão, interrompi suspendendo o passo, nunca ouvi que falasse mal do

senhor; pelo contrário, um dia, não há muito tempo, disse ele a um sujeito, em minha

presença, que o senhor era “um homem de capacidade e sabia falar como um deputado

nas câmaras”.

José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço grande e fechou outra vez o

rosto; depois replicou:

– Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor sangue, me têm feito o favor de

juízos altos. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo.

Tínhamos outra vez andado, subimos ao terraço, e olhamos para o mar.

– Vejo que o senhor não quer senão o meu benefício, disse eu depois de alguns

instantes.

– Pois que outra coisa, Bentinho?

– Neste caso, peço-lhe um favor.

– Um favor? Mande, ordene, que é?

– Mamãe...

Durante algum tempo não pude dizer o resto, que era pouco, e vinha de cor. José

Dias tornou a perguntar o que era, sacudia-me com brandura, levantava-me o queixo e

espetava os olhos em mim, ansioso também, como a prima Justina na véspera.

– Mamãe quê? Que é que tem mamãe?

– Mamãe quer que eu seja padre, mas eu não posso ser padre, disse finalmente.

José Dias endireitou-se pasmado.

– Não posso, continuei eu, não menos pasmado que ele, não tenho jeito, não

gosto da vida de padre. Estou por tudo o que ela quiser; mamãe sabe que eu faço tudo o

que ela manda; estou pronto a ser o que for do seu agrado, até cocheiro de ônibus.

Padre, não; não posso ser padre. A carreira é bonita mas não é para mim.

Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente,

peremptório, como pode parecer do texto, mas aos pedaços, mastigado, em voz um

pouco surda e tímida. Não obstante, José Dias ouvira-o espantado. Não contava

certamente com a resistência, por mais acanhada que fosse; mas o que ainda mais o

assombrou foi esta conclusão:

– Conto com o senhor para salvar-me.

Os olhos do agregado escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se, e o prazer

que eu contava dar-lhe com a escolha da proteção não se mostrou em nenhum dos

músculos. Toda a cara dele era pouca para a estupefação. Realmente, a matéria do

discurso revelara em mim uma alma nova; eu próprio não me conhecia. Mas a palavra

final é que trouxe um vigor único. José Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram

às dimensões ordinárias:

– Mas que posso eu fazer? perguntou.

– Pode muito. O senhor sabe que, em nossa casa, todos o apreciam. Mamãe pede

muita vez os seus conselhos, não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento...

– São bondades, retorquiu lisonjeado. São favores de pessoas dignas, que

merecem tudo... Aí está! nunca ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais; por

quê? porque são ilustres e virtuosas. Sua mãe é uma santa, seu tio é um cavalheiro

perfeitíssimo. Tenho conhecido famílias distintas; nenhuma poderá vencer a sua em

nobreza de sentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho, mas é

só um, – é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço.

– Há de ter também o de proteger os amigos, como eu.

– Em que lhe posso valer, anjo do céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um

projeto que é, além de promessa, a ambição e o sonho de longos anos. Quando pudesse,

é tarde. Ainda ontem fez-me o favor de dizer: “José Dias, preciso meter Bentinho no

seminário.”

Timidez não é tão ruim moeda, como parece. Se eu fosse destemido, é provável

que, com a indignação que experimentei, rompesse a chamar-lhe mentiroso, mas então

seria preciso confessar-lhe que estivera à escuta, atrás da porta, e uma ação valia outra.

Contentei-me de responder que não era tarde.

– Não é tarde, ainda é tempo, se o senhor quiser.

– Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu, se não servi-lo? Que desejo, se

não que seja feliz, como merece?

– Pois ainda é tempo. Olhe, não é por vadiação. Estou pronto para tudo; se ela

quiser que eu estude leis, vou para São Paulo...



CAPÍTULO XXVI

As Leis São Belas

Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma idéia, – uma

idéia que o alegrou extraordinariamente. Calou-se alguns instantes; eu tinha os olhos

nele, ele voltara os seus para o lado da barra. Como insistisse:

– É tarde, disse ele; mas, para lhe provar que não há falta de vontade, irei falar a

sua mãe. Não prometo vencer, mas lutar; trabalharei com alma. Deveras, não quer ser

padre? As leis são belas, meu querido... Pode ir a São Paulo, a Pernambuco, ou ainda

mais longe. Há boas universidades por esse mundo fora. Vá para as leis, se tal é a sua

vocação. Vou falar a D. Glória, mas não conte só comigo; fale também a seu tio.

– Hei de falar.

– Pegue-se também com Deus, – com Deus e a Virgem Santíssima, concluiu

apontando para o céu.

O céu estava meio enfarruscado. No ar, perto da praia, grandes pássaros negros

faziam giros, avoaçando ou pairando, e desciam a roçar os pés na água, e tornavam a

erguer-se para descer novamente. Mas nem as sombras do céu, nem as danças

fantásticas dos pássaros me desviavam o espírito do meu interlocutor. Depois de lhe

responder que sim, emendei-me:

– Deus fará o que o senhor quiser.

– Não blasfeme. Deus é dono de tudo; ele é, só por si, a terra e o céu, o passado,

o presente e o futuro. Peça-lhe a sua felicidade, que eu não faço outra coisa... Uma vez

que você não pode ser padre, e prefere as leis... As leis são belas, sem desfazer da

teologia, que é melhor que tudo, como a vida eclesiástica é a mais santa... Por que não

há de ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para alguma universidade, e ao mesmo

tempo que estuda, viaja. Podemos ir juntos; veremos as terras estrangeiras, ouviremos

inglês, francês, italiano, espanhol, russo e até sueco. D. Glória provavelmente não

poderá acompanhá-lo; ainda que possa e vá, não quererá guiar os negócios, papéis,

matrículas, e cuidar de hospedarias, e andar com você de um lado para outro... Oh! as

leis são belíssimas!

– Está dito, pede a mamãe que me não meta no seminário?

– Pedir, peço, mas pedir não é alcançar. Anjo do meu coração, se vontade de

servir é poder de mandar, estamos aqui, estamos a bordo. Ah! você não imagina o que é

a Europa; oh! a Europa...

Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma das suas ambições era tornar à Europa,

falava dela muitas vezes, sem acabar de tentar minha mãe nem tio Cosme, por mais que

louvasse os ares e as belezas... Não contava com esta possibilidade de ir comigo, e lá

ficar durante a eternidade dos meus estudos.

– Estamos a bordo, Bentinho, estamos a bordo!



CAPÍTULO XXVII

Ao Portão

Ao portão do Passeio, um mendigo estendeu-nos a mão. José Dias passou

adiante, mas eu pensei em Capitu e no seminário, tirei dois vinténs do bolso e dei-os ao

mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse a Deus por mim, a fim de que eu

pudesse satisfazer todos os meus desejos.

– Sim, meu devoto!

– Chamo-me Bento, acrescentei para esclarecê-lo.



CAPÍTULO XXVIII

Na Rua

José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves, como era

na rua, pelo homem dobradiço e inquieto. Mexia-se todo, falava de tudo, fazia-me parar

a cada passo diante de um mostrador ou de um cartaz de teatro. Contava-me o enredo de

algumas peças, recitava monólogos em verso. Fez os recados todos, pagou contas,

recebeu aluguéis de casa; para si comprou um vigésimo de loteria. Afinal, o homem teso

rendeu o flexível, e passou a falar pausado, com superlativos. Não vi que a mudança era

natural; temi que houvesse mudado a resolução assentada, e entrei a tratá-lo com

palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no ônibus.

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