21 de set. de 2011

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CAPÍTULO V



O Agregado

Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. Também se descompunha em

acionados, era muita vez rápido e lépido nos movimentos, tão natural nesta como

naquela maneira. Outrossim, ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade,

mas comunicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a

pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos lances graves, gravíssimo.

Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda

de Itaguaí, e eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico

homeopata; levava um Manual e uma botica. Havia então um andaço de febres; José

Dias curou o feitor e uma escrava, e não quis receber nenhuma remuneração. Então meu

pai propôs-lhe ficar ali vivendo, com pequeno ordenado. José Dias recusou, dizendo que

era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre.

– Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser, mas fique morando

conosco.

– Voltarei daqui a três meses.

Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro estipêndio, salvo o

que quisessem dar por festas. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de

Janeiro com a família, ele veio também, e teve o seu quarto ao fundo da chácara. Um

dia, reinando outra vez febres em Itaguaí, disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa

escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando que não

era médico. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola, e não o fez sem

estudar muito e muito; mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes.

– Mas, você curou das outras vezes.

– Creio que sim; mais acertado, porém, é dizer que foram os remédios indicados

nos livros. Eles, sim, eles abaixo de Deus. Eu era um charlatão... Não negue; os motivos

do meu procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para

servir à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.

Não foi despedido, como pedia então; meu pai já não podia dispensá-lo. Tinha o

dom de se fazer aceito e necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família.

Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me, não me lembra.

Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara;

ao sétimo dia, depois da missa, ele foi despedir-se dela.

– Fique, José Dias.

– Obedeço, minha senhora.

Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de

louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama.

“Esta é a melhor apólice”, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade

na família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao

cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe

suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da

índole. A roupa durava-lhe muito; ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o

vestido novo, ele trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma elegância

pobre e modesta. Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao serão e à

sobremesa, ou explicar algum fenômeno, falar dos efeitos do calor e do frio, dos pólos e

de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa, e confessava que a

não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa família,

dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.

– Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.

– Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração.

E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver que ele punha Deus no devido

lugar, e sorriu aprovando. José Dias agradeceu de cabeça. Minha mãe dava-lhe de

quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que era advogado, confiava-lhe a cópia

de papéis de autos.



CAPÍTULO VI

Tio Cosme

Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ela enviuvou. Já então era viúvo,

como prima Justina; era a casa dos três viúvos.

A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. Formado para as serenas funções

do capitalismo, tio Cosme não enriquecia no foro: ia comendo. Tinha o escritório na

antiga Rua das Violas, perto do júri, que era no extinto Aljube. Trabalhava no Crime.

José Dias não perdia as defesas orais de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga,

com muitos cumprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais

modesto que quisesse ser, sorria de persuasão.

Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. Uma das

minhas recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha

mãe lhe deu e que o levava ao escritório. O preto que a tinha ido buscar à cocheira,

segurava o freio, enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um

minuto de descanso ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo

ameaçava subir, mas não subia; segundo impulso, igual efeito. Enfim, após alguns

instantes largos, Tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais, dava o último

surto da terra, e desta vez caía em cima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar

por um gesto que acabava de receber o mundo. Tio Cosme acomodava as carnes, e a

besta partia a trote.

Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. Posto que nascido na

roça (donde vim com dois anos) e apesar dos costumes do tempo, eu não sabia montar, e

tinha medo ao cavalo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta.

Quando me vi no alto (tinha nove anos), sozinho e desamparado, o chão lá embaixo,

entrei a gritar desesperadamente: “Mamãe! mamãe!” Ela acudiu pálida e trêmula,

cuidou que me estivessem matando, apeou-me, afagou-me, enquanto o irmão

perguntava:

– Mana Glória, pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa?

– Não está acostumado.

– Deve acostumar-se. Padre que seja, se for vigário na roça, é preciso que monte

a cavalo; e, aqui mesmo, ainda não sendo padre, se quiser florear como os outros

rapazes, e não souber, há de queixar-se de você, mana Glória.

– Pois que se queixe; tenho medo.

– Medo! Ora, medo!

A verdade é que eu só vim a aprender equitação mais tarde, menos por gosto que

por vergonha de dizer que não sabia montar. “Agora é que ele vai namorar deveras”,

disseram quando eu comecei as lições. Não se diria o mesmo de tio Cosme. Nele era

velho costume e necessidade. Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi

aceito de muitas damas, além de partidário exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais do

ardor político e sexual, e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e específicas.

Agora só cumpria as obrigações do ofício e um amor. Nas horas de lazer vivia olhando

ou jogava. Uma ou outra vez dizia pilhérias.



CAPÍTULO VII

D. Glória

Minha mãe era boa criatura. Quando lhe morreu o marido, Pedro de

Albuquerque Santiago, contava trinta e um anos de idade, e podia voltar para Itaguaí.

Não quis; preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado. Vendeu a

fazendola e os escravos, comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou, uma dúzia de

prédios, certo número de apólices, e deixou-se estar na casa de Matacavalos, onde

vivera os dois últimos anos de casada. Era filha de uma senhora mineira, descendente de

outra paulista, a família Fernandes.

Ora, pois, naquele ano da graça de 1857, D. Maria da Glória Fernandes Santiago

contava quarenta e dois anos de idade. Era ainda bonita e moça, mas teimava em

esconder os saldos da juventude, por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação

do tempo. Vivia metida em um eterno vestido escuro, sem adornos, com um xale preto,

dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabelos, em bandós,

eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez trazia touca

branca de folhos. Lidava assim, com os seus sapatos de cordavão rasos e surdos, a um

lado e outro, vendo e guiando os serviços todos da casa inteira, desde manhã até a noite.

Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do do marido, tais quais na outra casa.

A pintura escureceu muito, mas ainda dá idéia de ambos. Não me lembra nada dele, a

não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande; o retrato mostra uns olhos

redondos, que me acompanham para todos os lados, efeito da pintura que me

assombrava em pequeno. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas, a cara é

toda rapada, salvo um trechozinho pegado às orelhas. O de minha mãe mostra que era

linda. Contava então vinte anos, e tinha uma flor entre os dedos. No painel parece

oferecer a flor ao marido. O que se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal

pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.

Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as acusou ainda

de imorais, como ninguém tachou de má a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a

esperança no fundo; em alguma parte há de ela ficar. Aqui os tenho aos dois bem

casados de outrora, os bem-amados, os bem-aventurados, que se foram desta para a

outra vida, continuar um sonho provavelmente. Quando a loteria e Pandora me

aborrecem, ergo os olhos para eles, e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica.

São retratos que valem por originais. O de minha mãe, estendendo a flor ao marido,

parece dizer: “Sou toda sua, meu guapo cavalheiro!” O de meu pai, olhando para a

gente, faz este comentário: “Vejam como esta moça me quer...” Se padeceram

moléstias, não sei, como não sei se tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser

nascido. Depois da morte dele, lembra-me que ela chorou muito; mas aqui estão os

retratos de ambos, sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão. São

como fotografias instantâneas da felicidade.



CAPÍTULO VIII

É Tempo

Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a

nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o

que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das

luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia... Agora é que eu ia começar a minha ópera. “A vida é uma

ópera”, dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia a definição, em

tal maneira que me fez crer nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um capítulo.

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