CAPÍTULO CI
No Céu
Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor peque em si, morto de
esperar, e vá espairecer a outra parte; casemo-nos. Foi em 1865, uma tarde de março,
por sinal chovia. Quando chegamos ao alto da Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos,
o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas, não só as já conhecidas, mas ainda as que
só serão descobertas daqui a muitos séculos. Foi grande fineza e não foi única. São
Pedro, que tem as chaves do céu, abriu-nos as portas dele, fez-nos entrar, e depois de
tocar-nos com o báculo, recitou alguns versículos da sua primeira epístola: “As
mulheres sejam sujeitas a seus maridos... Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos
riçados ou as rendas de ouro, mas o homem que está escondido no coração... Do mesmo
modo, vós, maridos, coabitai com elas, tratando-as com honra, como a vasos mais
fracos, e herdeiras convosco da graça da vida...” Em seguida, fez sinal aos anjos, e eles
entoaram um trecho do Cântico, tão concertadamente, que desmentiram a hipótese do
tenor italiano, se a execução fosse na terra; mas era no céu. A música ia com o texto,
como se houvessem nascido juntos, à maneira de uma ópera de Wagner. Depois,
visitamos uma parte daquele lugar infinito. Descansa que não farei descrição alguma,
nem a língua humana possui formas idôneas para tanto.
Ao cabo, pode ser que tudo fosse um sonho; nada mais natural a um exseminarista
que ouvir por toda a parte latim e Escritura. É verdade que Capitu, que não
sabia Escritura nem latim, decorou algumas palavras, como estas, por exemplo: “Senteime
à sombra daquele que tanto havia desejado.” Quanto às de S. Pedro, disse-me no dia
seguinte que estava por tudo, que eu era a única renda e o único enfeite que jamais poria
em si. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre as mais finas rendas deste
mundo.
CAPÍTULO CII
De Casada
Imagina um relógio que só tivesse pêndulo, sem mostrador, de maneira que não
se vissem as horas escritas. O pêndulo iria de um lado para outro, mas nenhum sinal
externo mostraria a marcha do tempo. Tal foi aquela semana da Tijuca.
De quando em quando, tornávamos ao passado e divertíamo-nos em relembrar
as nossas tristezas e calamidades, mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós.
Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados, os anos de adolescência,
a denúncia que está nos primeiros capítulos, e ríamos de José Dias que conspirou a
nossa desunião, e acabou festejando o nosso consórcio. Uma ou outra vez, falávamos
em descer, mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol, e nós
esperávamos um dia encoberto, que teimava em não vir.
Não obstante, achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer.
Concordava em ficar, mas ia falando do pai e de minha mãe, da falta de notícias nossas,
disto e daquilo, a ponto que nos arrufamos um pouco. Perguntei-lhe se já estava
aborrecida de mim.
– Eu?
– Parece.
– Você há de ser sempre criança, disse ela fechando-me a cara entre as mãos e
chegando muito os olhos aos meus. Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em
sete dias? Não, Bentinho; digo isto porque é realmente assim, creio que eles podem
estar desejosos de ver-nos e imaginar alguma doença; e confesso, pela minha parte, que
queria ver papai.
– Pois vamos amanhã.
– Não; há de ser com tempo encoberto, redargüiu rindo.
Peguei-lhe no riso e na palavra, mas a impaciência continuou, e descemos com
sol.
A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para
entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu
eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas
árvores; precisava do resto do mundo, também. E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ela,
parando, olhando, falando, senti a mesma coisa. Inventava passeios para que me vissem, me
confirmassem e me invejassem. Na rua, muitos voltavam a cabeça curiosos, outros paravam, alguns
perguntavam: “Quem são?” e um sabido explicava: “Este é o Dr. Santiago, que casou há dias com aquela
moça, D. Capitolina, depois de uma longa paixão de crianças; moram na Glória, as famílias residem em
Matacavalos.” E ambos os dois: “É uma mocetona!”
CAPÍTULO CIII
A Felicidade Tem Boa Alma
Mocetona é vulgar; José Dias achou melhor. Foi a única pessoa cá de baixo que nos visitou na
Tijuca, levando abraços dos nossos e palavras suas, mas palavras que eram músicas verdadeiras; não as
ponho aqui para ir poupando papel, mas foram deliciosas. Um dia, comparou-nos a aves criadas em dois
vãos de telhado contíguos. Imagina o resto, as aves emplumando as asas e subindo ao céu, e o céu agora
mais largo para poder contê-las também. Nenhum de nós riu; ambos escutávamos comovidos e
convencidos, esquecendo tudo, desde a tarde de 1858... A felicidade tem boa alma.
CAPÍTULO CIV
As Pirâmides
José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe, alternando os jantares da
Glória com os almoços de Matacavalos. Tudo corria bem. Ao fim de dois anos de
casado, salvo o desgosto grande de não ter um filho, tudo corria bem. Perdera meu
sogro, é verdade, e o tio Cosme estava por pouco, mas a saúde de minha mãe era boa; a
nossa excelente.
Eu era advogado de algumas casas ricas, e os processos vinham chegando.
Escobar contribuíra muito para as minhas estréias no foro. Interveio com um advogado
célebre para que me admitisse à sua banca, e arranjou-me algumas procurações, tudo
espontaneamente.
Demais, as nossas relações de família estavam previamente feitas; Sancha e
Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola, Escobar e eu a do
seminário. Eles moravam em Andaraí, aonde queriam que fôssemos muitas vezes, e,
não podendo ser tantas como desejávamos, íamos lá jantar alguns domingos, ou eles
vinham fazê-lo conosco. Jantar é pouco. Íamos sempre muito cedo, logo depois do
almoço, para gozarmos o dia compridamente, e só nos separávamos às nove, dez e onze
horas, quando não podia ser mais. Agora que penso naqueles dias de Andaraí e da
Glória, sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as Pirâmides.
Escobar e a mulher viviam felizes; tinham uma filhinha. Em tempo ouvi falar de
uma aventura do marido, negócio de teatro, não sei que atriz ou bailarina, mas se foi
certo, não deu escândalo. Sancha era modesta, o marido trabalhador. Como eu um dia
dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho, replicou-me:
– Homem, deixe lá. Deus os dará quando quiser, e se não der nenhum é que os
quer para si, e melhor será que fiquem no céu.
– Uma criança, um filho é o complemento natural da vida.
– Virá, se for necessário.
Não vinha. Capitu pedia-o em suas orações, eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedilo.
Já não era como em criança; agora pagava antecipadamente, como os aluguéis da casa.
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