8 de ago. de 2011

CAPÌTULO IV

E agora, com vocês: o narrador.


Machado de Assis narra Dom Casmurro em primeira pessoa, e assim nós ficamos conhecendo o personagem. Peço licença para fazer a mesma coisa falando um pouco de mim; afinal, vou acompanhar vocês nesta narrativa.

Chamo-me Francesco. O nome, que é uma homenagem a meu tataravô italiano, considerado o patriarca da família, completa-se com um absurdo Formoso, idéia de uma velha tia – sou Francesco Formoso de Azevedo. Formoso, eu? Talvez em bebê. Garoto, eu era normal. A não ser pelos olhos grandes e escuros que muitas garotas achavam bonitos (sem deixar de observar que eu tinha um “olhar desconfiado”), meu rosto era comum, sem nada especial.

Eu tinha um bom corpo, era alto para a idade, jogava basquete. Mas, Formoso? Formoso eu não era, e quando alguém brincava comigo por causa do nome eu ficava uma fera. Também não gostava muito do Francesco, um tanto difícil de escrever e de pronunciar. Claro que um apelido seria inevitável. Eu era (e sou, para os íntimos) o Queco. Não me perguntem como é que Francesco deu Queco. Deu, e a verdade é que, embora o apelido fosse meio esquisito (parecia um grasnido de pato: queco, queco, queco!), me simplificava a vida.

Minha família é toda de Itaguaí. Meu pai, advogado sindical, e minha mãe, assistente social, são ambos pessoas cultas, assim como meus dois irmãos. Gostam de ler, sempre gostaram. Na sala de visitas tínhamos uma biblioteca pequena, mas muito boa, com várias obras de Machado de Assis. O que não é de se estranhar: muita gente em Itaguaí é leitora de Machado; afinal, ele fez da cidade cenário para uma de suas melhores histórias, O alienista.

Nem todos os itaguaienses lhe são gratos por isso. Alienista era a denominação que se dava, no século XIX, aos médicos que tratavam dos alienados, dos loucos. O Alienista fala sobre um médico desses, o Doutor Bacamarte. Ele dirigia um hospício conhecido como Casa Verde. Só que o Doutor Bacamarte era, também ele, meio maluco; se não gostava de alguém, se achava a pessoa meio esquisita, mandava interná-la. Lá pelas tantas boa parte da população estava na Casa Verde. Aí o alienista chegou a uma conclusão: se a maluquice é a regra geral, quem tem que ir para o hospício são os sadios. Internou-se ele mesmo na Casa Verde, onde veio a morrer. A história ficou tão conhecida que muita gente achava que a tal Casa Verde tinha existido mesmo. E isto sempre incomodou alguns itaguaienses, que gostariam de ver a cidade lembrada por outras razões que não essa. Essas pessoas preferiam que Machado tivesse escolhido outro lugar para cenário de sua historia.

Mas estes inconformados são exceção. Na nossa cidade Machado tem muitos fãs; papai e mamãe, por exemplo, são vidrados na obra dele. Leram juntos Memórias Póstumas de Brás Cubas e muitos outros livros. De modo que quando voltei pra casa com o recém-comprado Dom Casmurro, ficaram muito satisfeitos:

- É uma grande história – disse papai. – Você vai adorar.

Mamãe queria saber se se tratava de uma recomendação da escola. Contei então a historia do julgamento da Capitu, do nosso plano de ganhar o concurso e de ajudar na reconstrução da escola. E perguntei:

- O que é que vocês acham? Vale a pena a gente entrara nessa?

Tanto papai como mamãe aprovaram a idéia. Sim, o colégio Zé Fernandes precisava ser reconstruído; eles mesmos já tinham contribuído com uma boa quantia, mas todo dinheiro extra que entrasse seria bem vindo, sobretudo se conseguido pelos alunos:

- Afinal de contas, a escola também é de vocês – disse papai.

Uma idéia me ocorreu: pedir que usasse seus conhecimentos de advogado para nos ajudar.

- É um julgamento, verdade que simulado, mas julgamento. E você, que é advogado, que sabe tudo de julgamentos, poderia nos dar algumas dicas...

Ele riu:

- Ora, Queco. Você sabe que minha especialidade são causas trabalhistas. Se Capitu fosse uma empregada despedias sem justa causa, e Bentinho o patrão, aí sim eu poderia opinar com segurança. Mas este caso trata de outro tipo julgamento...

- Que tipo de julgamento?

Ele pensou um pouco:

- Um julgamento moral, acho. Ou literário. Não sei bem. Mas certamente não é algo a que se possa aplicar o critério da lei. Além do que, a atividade foi pensada para os estudantes, não para seus pais.

Eu insisti, queria muito pelo menos saber a opinião dele: Capitu tinha ou não traído? De novo papai procurou tirar o corpo fora; disse que isto era questão de opinião pessoal, que uns achavam uma coisa, outros achavam outra. Minha mãe, olhos no jornal, não perdia a conversa. Não se contendo, disse:

- Ora, Sérgio, não me venha com essa. Você conhece o livro tão bem como eu e sabe que isso é papo furado. Aquele Bentinho era um casmurro mesmo, um chato de galochas. Um ciumento clássico. A coitada da Capitu não tinha culpa nenhuma, foi uma vítima. Pensem nisso, Queco, quando vocês prepararem o trabalho.

- Eu acho que eles têm que chegar à sua própria conclusão – opinou papai. – O que, aliás, não vai ser fácil. Esta dúvida, se Capitu traiu ou não, até hoje continua dividindo os brasileiros. Aliás, leitores de outros países também. No ano passado conheci um professor norte-americano que era fã do Machado de Assis, muito lido nos Estados Unidos, e a primeira pergunta que me fez, logo depois de nos apresentarmos, foi justamente essa: “O que você acha, Capitu traiu ou não traiu?”. Vocês vão ter assunto pra muita discussão...

- E vão aprender muita coisa – garantiu mamãe.

- É – confirmou papai. – vão debater muito. Machado é um grande escritor, e os grandes escritores nos ensinam a viver por meio de suas histórias.

Entrei no meu quarto, comecei a folhear o Dom Casmurro. Ali estava o começo que eu já conhecia:

“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos podem ser que não fossem inteiramente maus. Sucede, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.”

Prossegui, lendo um trecho aqui, outro ali, procurando formar uma primeira impressão do livro. Que foi muito favorável. Texto agradável, bem escrito, frases claras... Era até difícil parar de ler, e olha que eu estava cansado; tinha passado a manhã na escola, havia jogado basquete à tarde. Mas, diferentemente do narrador de Dom Casmurro, meus olhos não se fechavam; ao contrário, eu queria ler mais e mais.

“Vou gostar desse livro”, concluí. Jaime mais uma vez nos dera uma grande dica. Era um senhor escritor, aquele Machado de Assis.

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